Pistas para começar uma coleção dos 45 rotações de Jacques Brel (5)

Nome maior da história da canção popular, referência como autor e intérprete, figura ímpar da música em língua francesa, Jacques Brel (1929-1978) deixou-nos uma obra que tem vindo a cruzar-se com várias novas gerações de músicos e de melómanos.

No seu tempo foi cantado por figuras como a francesa Barbara ou a norte-americana Nina Simone, ambas cantando-o no francês de origem das suas canções. O mundo pop/rock em língua inglesa descobriu-o depois em versões traduzidas que ganharam voz em discos de Scott Walker, David Bowie ou Marc Almond.

Agora será a vez de Salvador Sobral. Tem para já três datas (Lisboa, Porto e Aveiro, respetivamente a 7, 8 e 10 de fevereiro), para nos apresentar concertos feitos de canções de Brel… Para preparar caminho vamos aqui evocar alguns dos singles e EP que Brel lançou. E vale a pena sublinhar que, apesar do protagonismo do LP (no caso francês e belga, era então usado o formato de dez polegadas), o EP foi importante veículo para levar a música de Brel a muitas casas, sobretudo na década de 60.

1954. “Grand Jacques”

Lado A: Le Diable (Ça Va) / La Haine

Lado B: Sur La Place / Grand Jacques

Depois de gravar primeiras maquetes e de se apresentar em público em várias ocasiões em 1953, o ano de 1954 assistiu ao lançamento de alguns dos primeiros discos de Jacques Brel. Os primeiros meses foram de muito trabalho e nem sempre brindado com o respeito e entusiasmo esperado. Uma das críticas (no France Soir, concretamente) chegou a afirmar que havia comboios para fazer viagens de regresso a Bruxelas…

Jacques Canetti reconheceu talento em Brel e chamou-o à sua editora. E ao mesmo tempo fê-lo visitar Juliette Gréco, a quem mostrou as suas canções. Com arranjos de André Grassi registou o seu álbum de estreia no Théatre de L’Apollo (em Paris) a 15 de fevereiro de 1954, numa sessão que o músico gravou de seguida. Pouco depois quatro canções do álbum de 1954, ao qual chamou Jacques Brel et ses Chansons, chegaram a este primeiro EP que fazia notar, claramente, na capa, um número “1”… Era o começo da sua vida discográfica e, naquele caso, a 45 rotações.

Brel apresenta ali quatro canções de sua autoria, algumas vincando aquele sentido de audácia que caracteriza a escrita nos dias de juventude. Destacaram-se logo ali Grand Jacques e Le Diable (Ça Va), nesta última fixando memórias coletivas de um passado recente vivido pelos belgas. O alinhamento inclui ainda Sur La Place e La Haine.

1960. “La Valse à Mille Temps”

Lado A: La Valse à Mille Temps / La Tendresse

Lado B: Ne Me Quittes Pas / La Dame Patronesse

François Rauber começou, aos poucos, a ganhar espaço na música de Jacques Brel. No seu segundo álbum, editado em 1957, surgia como diretor de orquestra em apenas uma canção. No seguinte, em 1958, dividia já o alinhamento a metade, partilhando com André Popp esse lugar. Coube, contudo, a La Valse à Mille Temps, álbum lançado em setembro de 1959, deixar claro que a visão de Rauber correspondia à demanda sonora que Brel desejava para as suas canções. E pela primeira vez todas elas passam pelos seus arranjos e direção.

Depois de apresentadas no álbum e de editadas em singles (com capa genérica) ainda em finais de 1959, as duas canções centrais do álbum eram reunidas num EP lançado em inícios de 1960, no qual partilhavam alinhamento com La Tendresse e La Dame Patronesse, ambos igualmente presentes no álbum de 1959.

Apesar do estatuto que o tempo atribuiria globalmente a Ne Me Quittes Pas – talvez a mais célebre das canções de Brel, com versões por inúmeras vozes em muitas línguas – a capa do EP destaca La Valse à Mille Temps que, afinal, era também a canção que dava título ao álbum. A canção emerge suave, como uma discreta valsa, mas cresce em intensidade até alcançar o patamar de um turbilhão, que entrelaça voz e acordeão, traduzindo a assinatura teatral de Brel como intérprete.

1960. “Les Flamandes”

Lado A: Les Flamandes / Seul

Lado B: Isabelle / La Colombe

O álbum La Valse à Mille Temps não gerou apenas momentos de encantamento e celebração (que chegaram quer ao som da canção que lhe deu título quer em Ne Me Quitte Pas que se transformou num clássico de projeção ainda maior). Essencialmente francófono, Brel apresentou em Les Flamandes um olhar – com algo de sátira – às danças populares flamengas das regiões no norte da Bélgica.

Acontece que o retrato cantado foi entendido como sendo uma provocação. E a canção acabou mesmo por ser excluída das programações das rádios para evitar problemas maiores… O irmão de Brel, que tinha uma fábrica de cartão na qual trabalhavam sobretudo, belgas que falavam flamengo, tentou marcar uma conferência para explicar a canção, mas Jacques estava em digressão e ele mesmo falou com os funcionários um a um. Mais do que uma crítica aos flamengos a canção satiriza aqueles que se agarram a velhos costumes, algo que Brel achava ser coisa de um passado que devia ser ultrapassado.

O EP inclui, além de Les Flamandes, três outras canções igualmente extraídas do mesmo álbum e, portanto, todas elas com arranjos e direção de orquestra de François Rauber. Entre essas canções está Seul, uma reflexão sobre a solidão gravada em 1959 e hoje reconhecida, musical e poeticamente, como um sinal de início de uma mudança na sua escrita.

1962. “Le Plat Pays”

Lado A: Le Plat Pays / Casse Pompon

Lado B: Les Biches

1962 marca um ano de importância fulcral na carreira de Jacques Brel. Não só representa a sua mudança para uma nova editora, a Barclay, como para a estreia no novo selo grava um álbum no qual abre, mais que nunca, os horizontes musicais, permitindo, naturalmente sob direção musical de François Rauber, novos requintes de sons adiante dos velhos jogos para guitarras, pianos e arranjos de cordas. As canções deste EP estão, todas elas, no alinhamento desse disco.

O melancólico Le Play Pays, tema fulcral do alinhamento desse novo álbum, retrata a sua Bélgica numa canção sombria e de nuvens baixas na qual se escuta um instrumento pioneiro da música eletrónica nos segundos finais: as Ondas Martenot. As palavras retratam as linhas de costa, as planícies, os ventos, as nuvens baixas, os canais, e falam das catedrais como sendo as únicas montanhas que ali encontramos. Pouco dado a ser reconhecido como poeta (preveria ser visto como artista de variedades), Brel chegou a reconhecer que, de toda a sua obra, Le Plat Pays seria um dos exemplos que apontaria como poesia.

Na verdade, este é o retrato da região da Bélgica da qual a sua família proveio. As semelhanças entre esta região mais a oeste do país e a Holanda (ali ao lado) e o facto de Brel ter gravado a canção também em neerlandês, com o título Mijn vlakke land, fez com que este tema se tornasse igualmente célebre do outro lado da fronteira. Entre as muitas marcas de presença desta canção na cultura popular está uma referência feita no livro Astérix entre os Belgas.

No polo oposto, Casse Pompon é uma daquelas canções de excesso e grandiosidade no som. Teatral como Brel gostava de criar, encenar e depois representar, com nada mais que a sua voz e um corpo em entrega total.

O EP inclui ainda Les Biches, canção suave que traduz uma das várias abordagens de Brel aos universos do amor, estabelecendo uma série de jogos que usam referências de ternura e elegância que associamos a animais, projetando-as num quadro que aborda, metaforicamente, as suas visões sobre o amor, o masculino e o feminino.

1965. “Ces Gens Là”

Lado A: Ces Gens Là

Lado B: Jacky / L’Age Idiot

Revelados inicialmente num formato de mini LP em finais de 1965, reunidos depois (já em 1966), num álbum com o mesmo título (mas um alinhamento mais extensos), os três temas deste EP são exemplos de uma fase de grandiosidade teatral tanto na interpretação de Brel – o que não era necessariamente uma novidade – mas também em arranjos de grande fulgor e dramatismo que François Rauber então entrega às canções.

A peça central deste EP é Ces Gens Là, uma canção formalmente complexa, que se desenha suavemente em volta de uma voz que narra uma confissão amorosa, lançando com desdém olhares à família da amada, de seu nome Frida. O texto é mordaz e violento, sugerindo tensão que acaba por emergir na música, gerando um dos episódios mais intensos de toda a obra de Brel.

Na outra face encontramos L’Age Idiot e Jacky (mais adiante identificada como La Chanson de Jacky), esta última outra manifestação de exuberância na música (com referências ibéricas) numa letra não menos intensa no modo de abordar o protagonista. E o Jacky de quem Brel fala mesmo, num quadro autobiográfico no qual chega mesmo a questionar a sua criatividade. Numa tradução para inglês por Mort Schuman, esta canção conheceu várias vidas, a mais marcante de todas numa gravação de Scott Walker editada em 1967.

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