Duran Duran, “Thank You” (1995)

Editado em 1995, faz hoje precisamente 25 anos, o álbum “Thank You”, todo ele feito de versões, está longe de ser dos mais interessantes e bem amados do grupo. Mas há aqui alguns momentos que merecem ser reencontrados. Texto: Nuno Galopim



O gosto por fazer versões tem expressões na discografia dos Duran Duran logo desde o ano em que se estrearam. N lado B da versão em 12 polegadas de Careless Memories incluíam uma versão de Fame, de David Bowie. E algum tempo depois começaram a tocar, em concertos o tema Make Me Smile (Come Up and See Me), de Steve Harley, que, precisamente numa versão de palco, surgira em 1984 no lado B do single The Reflex… Com o tempo gravariam novas abordagens a Femme Fatale dos Velvet Underground (que chegou a ser single em França), Instant Karma de John Lennon e ao vivo passaram por Virginia Plain dos Roxy Music. Mas nunca houve uma tão grande concentração de versões (e de certa forma uma exposição de referências) como a que, em 1995, apresentaram em Thank You, um álbum em cujo alinhamento apenas um tema era dos próprios Duran Duran. E mesmo aí revelava, afinal, uma “versão” de uma canção de 1982…

O histórico Pin Ups de David Bowie estará certamente na raiz desta vontade do grupo em definir, através de uma seleção de versões, uma homenagem a alguns dos nomes que os inspiraram. Conhecendo-os, e para a coisa ser mais precisa creio que faltava aqui juntar Chic e Kraftwerk (só destes últimos tive uma vez, em Berlim, uma bela conversa extra entrevista com o teclista Nick Rhodes). Thank You é contudo mais abrangente e de horizontes mais abertos do que apenas a procura de um leque de memórias formadoras, já que junta algumas descobertas e vivências mais recentes, aqui notando-se uma destacada presença de referências na área do hip hop.

Há 25 anos, precisamente para assinalar o lançamento de Thank You, entrevistei para o DN Warren Cuccurullo, que então era o guitarrista do grupo (lugar que começou a ocupar, como convidado, em 1986, até que três anos depois ganhou estatuto de membro oficial, o que se manteve até à reunião da formação original já no século XXI). Warren referia como uma das principais razões para a criação do álbum o facto de terem ficado parados por algum tempo por conta da convalescença do vocalista Simon Le Bom, que tinha sofrido um acidente: “Estávamos em novembro de 1992 e ultimávamos as misturas da versão final do álbum Duran Duran, isto tudo numa altura que coincidiu com o acidente do Simon. Entre as misturas, com algum tempo livre, decidimos gravar versões de alguns temas, que então pensávamos utilizar como lados B ou num EP que editaríamos depois do álbum”. O lançamento do álbum e o seu sucesso inesperado, alavancado pelos singles Ordinary World e Come Undone, deixou estas ideias na gaveta por uns tempos. “Originalmente nunca se pensou na gravação de um álbum”, acrescentou Warren. “Havia a possibilidade da edição do MTV Unpluggeed em disco, mas a coisa não se concretizou”. E assim que tiveram “a certeza de que não haveria um disco acústico ao vivo”, avançaram então para a criação “de um álbum de versões”.

O disco é feito de “temas que, em alguns casos, não todos, representam obras magníficas que não foram suficientemente expostas nas suas gravações originais”, alertou então o guitarrista, reconhecendo que as escolhas passaram não apenas por questões de gosto pessoal, mas também de adaptação possível à voz de Simon Le Bon. O leque de temas escolhidos é vasto e, sobretudo, versátil, passando pelos espaços do rock mais clássico, o universo dos cantautores da geração de 60, as memórias da new wave, os terrenos do funk ou o já referido olhar atento sobre o hip hop, num alinhamento que inclui White Lines (Don’t Do it) (Grandmaster Melle Mel), I Wanna take You Higher (Sly & The Family Stone), Perfect Day (Lou Reed), Watching The Detectives (Elvis Costello), Lay Lady Lay (Bob Dylan), 911 is a Joke (Public Enemy), Success (Iggy Pop), Ball of Confusion (The Temptations), Crystal Ship (The Doors) e Thank You (Led Zeppelin). O alinhamento incluía ainda Drive By, a tal nova leitura sobre The Chauffeur (do álbum Rio de 1982), assimilando aqui ecos da digressão An Acoustic Evening With Duran Duran, de 1993. A edição japonesa juntava ainda a já conhecida versão de Femme Fatale (Velvet Underground) e uma de Diamond Dogs (David Bowie). A ementa era de facto gourmet… E se algo correu menos bem o problema não teve a ver com a matéria prima.

O disco, explicou na mesma entrevista Warren Cuccurullo, “passou por vários estúdios e muitos engenheiros de som. Era preciso encontrar um fio condutor”. O guitarrista nota que nem todos aqueles que então trabalharam as gravações “conseguiam compreender” o que o grupo pretendia, pelo que se viram “forçados a enviar gravações daqui para ali”… O vaivém prolongou os trabalhos… No fim, mesmo assim, Warren era um músico satisfeito, descrevendo Thank You como “uma experiência interessante”. E continuou: “Concentrámo-nos bastante no trabalho de produção, uma vez que estávamos libertos das tarefas de composição. Não tínhamos, pois, as habituais preocupações com a alteração de parte das letras ou das melodias. As bases de trabalho eram canções de outras pessoas, que então enfrentámos pensando até onde é que as poderíamos alterar. Seriam canções passíveis de uma atualização para um som compatível com os anos 90? Seria melhor megaproduzir esta ou aquela? Ou, pelo contrário, a opção certa era a simplicidade? Os critérios, de resto, nem foram muito diferentes daqueles que utilizamos quando damos forma às nossas próprias canções.

Mesmo assim Warren deixava claro que esta era uma experiência pontual e diferente no quadro da obra dos Duran Duran: “De certa forma, apesar de o disco ser nosso não somos nós. Somos uma banda que gosta de escrever as suas próprias canções”. Mesmo assim deixava uma nota que abria a possibilidade de aqui poderem ser feitas descobertas: “É claro que apreciaria muito pegar no disco novo e ver que era constituído por originais, mas reconheço que em Thank You há também muito de Duran Duran para descobrir”.

O disco herdou os efeitos do momento mediático gerado pelo grande impacte álbum Duran Duran de 1993 (muitas vezes referido como o Wedding Album) e chegou a ter um desempenho mediano. Mas no plano da crítica, e com alguma razão, Thank You não colheu grandes elogios, chegando mesmo um painel de editores da revista Q (que está longe de ser das mais recomendáveis, é verdade) a votá-lo como o pior álbum de sempre. Um perfeito exagero, claro. Como em outros instantes da sua história, o grupo aprendeu com a lição. E dois anos depois surgiria com algo completamente diferente. E um dos mais interessantes (e injustificadamente ignorados) dos discos da sua carreira. Chamava-se Medazzaland e um dia destes a ele regressaremos… Mas voltemos a Thank You

Se o chamado Wedding Album havia (aparentemente) resolvido o desnorte do qual havia emergido o equívoco Liberty em 1990, Thank You mostrou que a ideia de um possível renascimento para os anos 90, sob uma nova orientação, era coisa ainda longe de sedimentada. E se há instantes em que a identidade dos Duran Duran mostra alguma capacidade em dialogar com originais de outros e trazê-los ao seu universo – como o havia feito numa versão de Fame em 1981 – em várias faixas corre um clima que é mais de coisa para ensaio e diversão em estúdio (e eventualmente ao vivo) que material para fixar para a posteridade num álbum de um nome com o estatuto e história de uns Duran Duran. Curiosamente (ou nem por isso) o melhor momento é aquele em que os Duran Duran revisitam… os próprios Duran Duran, em Drive By.

A versão de Perfect Day, que valeu um rasgado elogio do próprio Lou Reed, foi escolhida como single de apresentação e representa, após dez anos de silêncio, o reencontro com o baterista Roger Taylor, que acedeu inclusivamente em surgir no teledisco que então acompanhou a canção. Roger colaborou ainda na gravação da versão de Watching The Dectectives, outro dos raros momentos compensadores do alinhamento. No departamento dos reencontros assinale-se ainda a presença de Tony Thompson (também baterista), que integrou os Power Station, em I Wanna Take You Higher. Outro baterista, Terry Bozzio (dos Missing Persons, a antiga banda de Warren Cuccurullo), surge em Thank You, Success e Drive By.

Para segundo single foi escolhido White Lines (Don’t Do It), um clássico da geração pioneira do hip hop de inícios dos anos 80, que os Duran Duran estavam já a apresentar em concertos e que ainda hoje, com alguma frequência, surge em alinhamentos de palco. A abordagem, que cruza a alma hip hop do tema com um fulgor elétrico muito característico da etapa em que Warren Cuccurullo militou nos Duran Duran. Para os coros a versão contou com a versão do próprio Grandmaster Melle Mel , num caso relativamente invulgar de presença dos homenageados numa versão.

Em Espanha e Itália houve ainda um terceiro single extraído de Thank You. A canção escolhida foi aí Lay Lady Lady, que nuestros hermanos editaram num formato de máxi single (hoje em dia uma raridade disputada a altos preços) e em Itália surgiu apenas em CD single.

Thank You teve edição original essencialmente em CD e cassete. Houve edições em LP em vinil no Reino Unido, Itália e Brasil. Salvo uma reedição japonesa em CD em 2014 (e com alinhamento igual à edição local de 1995), Thank You não voltou a surgir em novos lançamentos desde os originais.

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