Nuno Miguel Guedes

Jornalista, letrista, Nuno Miguel Guedes tem dedicado muito do seu tempo, nos últimos anos, aos eventos Poetas do Povo e integra a Lisbon Poetry Orchestra. Mas hoje fala-nos dos seus discos.

Qual foi o primeiro disco que compraste ? 

Dos meus 14 até aos 16, 17 anos havia uma ocasião social que era imperdível: as festas em casa de amigos, seja em garagens ou na sala. Nessas festas a selecção musical era muito ecléctica, sendo o critério principal os discos que estavam na moda – o que nem sempre era bom. Foi portanto sem surpresa que me vi numa discoteca a comprar o single I Was Made For Lovin’ You, dos Kiss, um disco-rock  um pouco manhoso mas orelhudo, que fazia furor na altura. 

E o mais recente…

Encomendei o Bookends em vinil, de Simon & Garfunkel. Descobri o disco há relativamente pouco tempo e fiquei apaixonado.

O que procuras juntar mais na tua coleção? 

Sinatra. Aceito tudo – edições clandestinas e rascas, compilações, a discografia oficial…Estou sempre atento. Como é uma discografia em aberto tenho sempre que fazer…

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

You Can’t Hide Your Love Forever, Orange Juice, edição em vinil.. Uma obra-prima a que volto frequentemente. É relativamente fácil comprá-lo na net (e caro…) mas gosto mais de andar à caça pelas lojas. É um terço do prazer. 

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

Argybargy, dos Squeeze, edição em vinil, em segunda mão. Uma banda que adoro.

Limite de preço para comprares um disco. Existe? E é quanto? 

Difícil. Depende do disco e das minhas finanças… Mas por uma boa edição em vinil de um disco há muito desejado serei capaz de dar 50, 60 euros. Nunca aconteceu .Por uma edição rara daria mais, provavelmente.

Lojas de eleição em Portugal…

A Louie Louie, sem dúvida. Mas gosto de ir a todas as lojas que vendem vinil e disso dependem e não a grandes superfícies como a FNAC. Como gosto muito de jazz costumava também ir muito à Trem Azul, na rua do Alecrim, que infelizmente já não existe. 

Escrever sobre discos muda a atitude que se possa ter como colecionador? 

Bom, eu não sei se serei exactamente um colecionador. Parece-me faltar alguma disciplina e ansiedade para isso (para além de dinheiro, eventualmente…). Mas gosto de discos e tenho um critério de atenção para o que compro. Dito isto, penso que esta vocação não terá tanto a ver com escrever sobre música mas sim com o facto de gostar de música de uma forma geral. O escrever obriga-me a ter mais informação e isso também aplico naturalmente ao que compro. 

Como te manténs informado sobre discos que te possam interessar como colecionador? 

Mais uma vez digo que tenho dúvidas sobre se serei o colecionador puro e duro. Sei os discos de que gosto, leio as críticas mas sobretudo continuo a exercer uma prática muito saudável que me vem de longas noitadas no início dos anos 80, quando era um privilégio estar a par do que ia saindo: ouvir e discutir discos com amigos. Conhecer e dar a conhecer. Isso vale por tudo e mantenho esse exército de cúmplices, inter-geracional e onde agora incluo alegremente os meus filhos. 

Que formatos tens representados na coleção? 

Vinil: singles, 12”, LP. E CD.

Os artistas de quem mais discos tens? 

Sinatra, de quem sou fã absoluto e, passe a imodéstia, bastante conhecedor. Entre CD e vinil, cerca de 80 discos. Depois há bandas como os Prefab Sprout, os Beatles ou os Smiths de que tenho a discografia oficial  toda ou quase toda. 

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas… 

Alguns da Postcard Records, editora independente escocesa do início dos anos 80 e de que gosto muito. No catálogo destacam-se os Orange Juice ou os Aztec Camera mas havia outras bandas que por lá andavam e que não conhecia mas comprava, como foi o caso dos Josef K., que fiquei a adorar. Outro exemplo dessa editora foi o primeiro single de uns moços australianos chamados The Go-Betweens… Como cresci com o ´pós-punk a Factory era outra editora de referência que me fazia comprar discos de olhos fechados. 

Uma capa preferida. 

Várias. Gosto muito das capas do Peter Saville para os Joy Division (Closer, Atmosphere, Still). As capas dos Smiths também são magníficas. As de Sinatra da fase Capitol (1953-1960) também, sendo a minha preferida o Where Are You? O trabalho do Reid Miles para a Blue Note também é maravilhoso.

Uma disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro. 

Bom, eu gosto muito de um sub-género a que se convencionou chamar de exótica. Discos improváveis gravados por gente improvável.A minha jóia da coroa é o maravilhoso Calypso – Is Like So… , do Robert Mitchum. Sim, esse Robert Mitchum. Artisticamente é difícil gostar mas eu acho magnífico.

Como tens arrumados os discos? 

Primeiro, por banda ou artista de quem tenha maior discografia. A seguir por géneros musicais.

Um artista que ainda tenhas por explorar… 

Não sei. À medida que a idade nos chega há uma inquietação que vai desaparecendo e uma vontade de permanecer no que nos é familiar. É para isso que conto com os mais novos – para me oferecerem descobertas. 

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos. 

Tenho vindo a redescobrir o power pop e nessa redescoberta deparei-me com uma banda que adorava quando esteve na moda e depois deixei de conseguir ouvir. Agora, já crescidinho e com menos preconceitos, oiço sem problemas e aos berros o Live At Budokan dos Cheap Trick. Excelente!

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Com já uns anos de poetas do povo vividos, tens discos de poesia na tua coleção? Recomendas alguns? 

Os meus pais tinham muitos discos de poesia, até porque no final dos anos 60 e durante a década de 70 essas gravações eram comuns . Infelizmente, nas várias mudanças e fases da vida perdi-os todos… Por isso foi com muita alegria que vi a Valentim de Carvalho reeditar alguns deles em CD, ditos pelos declamadores e poetas originais e acrescidos de leituras contemporâneas. Recomendo todos, é uma excelente iniciativa.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história? 

Há muitos. Lembro-me de comprar o primeiro LP da Sétima Legião (“A Um Deus Desconhecido”) e pensar, orgulhoso “Estes gajos são meus amigos e logo à noite vou estar a beber copos com eles no Bairro Alto”.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Não será exactamente um disco obscuro mas é o menos replicado para aqueles que não são admiradores da banda – o que eu sou e muito: I Trawl The Megahertz, Prefab Sprout. Uma beleza insuperável e escrito sob condições físicas muito difíceis dado uma doença crónica  que aflige o Paddy McAloon e que foi inspiração para o disco.

Um pensamento

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