A história de uma transformação que ajudou a procurar novos rumos para a canção pop

Editado em 1990 o segundo álbum dos The Beloved revelou diálogos entre a pop e as novas formas de música de dança. Uma reedição junta um disco extra que documenta como o grupo partiu de uma identidade indie e se deixou encantar por novos desafios. Texto: Nuno Galopim

É ao escutar os sinais dos tempos que muitas vezes uma banda pode encontrar qual é, afinal, o seu caminho. Os Beloved tinham já lançado alguns singles e até mesmo Where it Is, um álbum de estreia (lançado em 1987, e então quase invisível), quando deixaram que o clima que semana após semana conquistava adeptos nas noites dançantes de Londres (e Ibiza, em tempo de férias) sugerisse novos caminhos.

Jon Marsh tinha já passado por outras aventuras e, depois de uma cisão de um núcleo original em 1987, manteve ativos os Beloved como um duo (com Steven Waddington). Foi ao sexto single, Your Love Takes Me Higher, editado em inícios de 1989, que surgiram claramente animados (e transformados) por uma ideia pop iluminada por ideias escutadas na houseacid house e o então chamado ballearic (adiante revelando ainda sinais de interesse pelas emergentes formas de um novo techno e um gosto particular pela deep house).

A aparente fragilidade da voz de Marsh, o melodismo seguro da composição e a solidez da arquitetura rítmica da canção cativou atenções e não deixou dúvidas quanto ao caminho que deviam seguir. Tanto que, meses depois, em outubro de 1989, apresentavam em The Sun Rising uma ainda mais expressiva assimilação das novas vitaminas libertadas pela club scene na forma de um tema que, no fundo, não deixava de ser uma canção de alma pop (vitaminada com um sample de uma interpretação de uma peça da abadessa Hildegard Van Bingen). E que acabou por se transformar, juntamente com Pacific State dos 808 State ou Little Fluffy Clouds, dos The Orb, uma das peças de referência do manifesto chill out que então ganhou ateptos e expressão mediática (sobretudo nas páginas da sempre atenta The Face).

Seguiu-se, já em 1990, Hello. Este trio de singles serviu então de cartão de visita para Happiness, um álbum que confirmou em pleno a solidez da visão abraçada pelos Beloved. O disco mostrava uma filiação atenta às novas revelações lançadas pela música de dança do seu tempo, mantinha firme uma identidade pop (ciente da canção como forma central a trabalhar), abria espaço a soluções se arranjos que sugeriam uma certa elegância (devidamente suportada por uma produção polida e eficaz). Um outro single surgiria pouco depois, fazendo do calor de fim de tarde de Time After Time um dos clássicos mid tempo de então.

Juntamente com álbuns como World Clique, o primeiro dos Deee Lite ou Behaviour, dos Pet Shop Boys, Happiness é um disco quer marca o momento em que a pop escutou e integrou na matriz das suas canções os ecos da revolução que a globalização do fenómeno house lançou em finais dos oitentas. Não repetiram nunca o encontro feliz de argumentos e ingredientes que aqui mostraram e, com o tempo, perderam viço e visibilidade. Mas em Happiness os Beloved assinaram um dos primeiros grandes discos da pop dos anos 90.

Agora, 30 anos depois, uma edição especial junta ao álbum um segundo disco com gravações (na sua maioria maquetes) que o grupo gravou nos estúdios Wolf (onde então trabalhavam) entre 1988 e 1990. Cronologicamente ordenadas, juntando primeiras ideias para canções que depois ganharam forma em Happiness e revelando temas que entretanto foram surgindo em singles (como foi o caso de Acid Love, lado B do single Love Feeling, de 1988, e onde os ecos do acid house eram já bem evidentes), os temas documentam a gradual transformação dos Beloved na (inconsequente) banda indie que tinha editado Where It Is em 1987 na vibrante fonte de novas visões que, então, ajudaram a abrir a porta dos anos 90 à canção pop. O pack inclui ainda um pequeno booklet com um texto no qual Jon Marsh nos recorda os episódios de transformação que este disco de extras agora revela.

“Happiness (Special Edition)” dos Beloved, está disponível no formato de 2CD e nas plataformas digitais numa edição da New State Music. Está igualmente disponível uma nova edição do álbum no formato de LP em vinil.

Um pensamento

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