Arcadia “So Red The Rose” (1985)

Com uma multidão de convidados, entre os quais Grace Jones, Sting, David Guilmour ou Herbie Hancock, “So Red The Rose” representou um espaço de exploração de caminhos cenicamente elaborados, mas na verdade com afinidades com os Duran Duran. Texto: Nuno Galopim

O final da digressão mundial que se seguiu à edição do álbum Seven and the Ragged Tiger exibia entre os elementos dos Duran Duran claros sinais de tensão que só umas férias podiam resolver. John e Andy Taylor começaram então uma série de sessões de gravações para as quais chamaram alguns outros músicos, desse corpo de trabalho emergindo uma nova banda – os Power Station – e um álbum de maior fôlego rock e animado por um interesse rítmico por heranças do funk que seria lançado logo no início de 1985. Por seu lado Simon Le Bon, Nick Rhodes (chamando depois a bordo Roger Taylor, que colaborou igualmente no disco dos Power Station) reuniam-se no estúdio La Grande Armée, em Paris e, durante meses a fio (e com um orçamento nada discreto) criaram um conjunto bem distinto de canções nas quais exploraram um sentido mais cenográfico das possibilidades para canção pop. Com delas surgiria também uma banda – a que chamaram Arcadia – e um álbum que, com o título So Red the Rose, foi lançado em novembro de 1985.

O ano de sabática dos Duran Duran (na verdade interrompido para o single A View To a Kill criado para o filme de James Bond e uma atuação não muito feliz no Live Aid) tinha afinal produzido dois álbuns. Um mais intenso, anguloso, distante dos caminhos seguidos pela banda, mas cujas experiências teriam alguma repercussão mais tarde. O outro mais próximo da ideia de uma pop sofisticada e elegante que os Duran Duran tinham abordado no disco de 1983 e que teria maior consequência em alguns momentos futuros na discografia da banda. Na verdade So Red The Rose podia ser um disco dos Duran Duran… O seu Zooropa, mais até do que uns Passengers…

So Red The Rose teve em Election Day um cartão de visita que desde logo sugeriu um trabalho meticuloso em estúdio numa canção de cenografia cuidada e nada minimalista e que, mesmo explorando novas ideias, não se afasta tanto quanto o fizeram os Power Station dos caminhos recentes da obra dos Duran Duran. O trabalho protagonista das teclas, espalhado por várias camadas de acontecimentos e a presença vocal de Simon Le Bon garantem essa assinatura genética comum aos Duran Duran. A voz convidada de Grace Jones, uma utilização diferente das guitarras (onde colaborava Masami Tsuchiya, que acompanhara os Japan na sua etapa final) e toda uma construção visual que vincou sinais de uma admiração pela obra de Jean Cocteau, marcavam, num outro sentido, elementos distintivos. O single foi o único hit nascido deste disco, tendo surgido em alinhamentos de concertos dos Duran Duran em diversas ocasiões desde então.

O álbum aprofundaria o sentido das demandas estéticas reveladas em primeira mão pelo single de apresentação num alinhamento que a essa exploração mais intensa dos teclados e do detalhe cénico na produção acrescentou ainda frequentes marcas da cultura latina (bem evidentes em El Diablo), aproximando-se de caminhos comuns aos da música dos Duran Duran em vários momentos, não deixando contudo nunca de ensaiar novas possibilidades, como se escuta por exemplo nas atmosferas que desenham o instrumental Rose Arcana, Missing (cuja letra partiu do mesmo caderno de Le Bom de onde tinha emergido The Chauffeur) ou o tom épico com que Lady Ice encerra o alinhamento. Temas como Goodbye is Forever, The Flame (ambos editados em single) e Keep Me In The Dark refletem também essas afinidades naturais com os caminhos da pop dos Duran Duran em meados dos anos 80, tendo esta última conhecido natural herdeiro em American Science do álbum Notorious gravado no ano seguinte.

The Promise, pérola de labor na composição e produção que chamou a estúdio colaborações como as de David Gilmour (Pink Floyd), Herbie Hancock ou Sting, é outro dos momentos maiores do disco. Editado como segundo single na Europa (já que para os EUA e Japão foi escolhido Goodbye is Forever), The Promise ficou consideravelmente aquém da visibilidade de Election Day, sugerindo, tal como sucedera ao terceiro single dos Power Station, que os projetos em paralelo tinham valorizado experimentalmente os músicos mas em nada traduziam o sucesso que a banda vivera nos dois anos anteriores (aqueles em que conheceu, de facto, maior impacte global).

Vários problemas acompanharam contudo a materialização em disco das visões que Rhodes e Le Bom (Roger Taylor não foi ali força omnipresente) então definiram em estúdio. Antecipando um hábito – hoje frequente – de chamar colaboradores a estúdio, So Red The Rose deixou evidentes as marcas dos convidados, entre os quais estava Andy MacKay, dos Roxy Music (cujas influências são aqui também evidentes). Mas das muitas e longas sessões surgiram várias visões distintas para muitas das canções, jams que acabaram guardadas nas bobinas, assim como instrumentais não editados (um deles chamar-se-ia The Queen Mother). Numa entrevista ao site Super Deluxe Edition (aqui) Nick Rhodes avança que as limitações de espaço do vinil obrigaram as canções a apresentar-se todas mais curtas do que o previsto, a mais evidente das “amputações” cabendo a Rose Arcana, instrumental que na sua versão original surgiria depois no lado B de The Promise. Nesta magnífica prosa de história oral (além de Nick Rhodes falam ali outros nomes envolvidos na criação do disco) fica claro que há muito material inédito destas sessões que geraram o álbum dos Arcadia. E Nick Rhodes admite mesmo uma eventual edição “deluxe”, mas certamente que com curadoria sua e de Le Bon, mas não vamos aqui arriscar datas (quem conhece os Duran Duran sabe como as datas, nestas coisas das edições e das ideias, resvalam sempre).

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