Carlos Paredes “Guitarra Portuguesa” (1967)

Editado em 1967, o primeiro álbum de Carlos Paredes acentua o virtuosismo do intérprete ao mesmo tempo que abre espaços de ainda maior liberdade para o compositor. Este é um dos melhores discos portugueses da década de 60. Texto: Nuno Galopim

Este texto é o nono de uma série abordagens a álbuns da música portuguesa que ou estão ainda guardados apenas na memória do vinil ou não costumam ser apontados como os títulos de referência dos respetivos autores ou até são por vezes ignorados em listagens dos mais representativos do seu tempo ou que aguardam (justificada) reedição em LP… Todos eles são discos a ter em conta para contar as histórias de quem os fez e do período em que foram gravados e editados. Este foi o primeiro álbum de Carlos Paredes. É um clássico absoluto, mas houve já listas que optaram por destacar antes o Movimento Perpétuo (de 1971). Ambos, na verdade, são essenciais.

É no momento em que acentua a reflexão sobre novos horizontes de possibilidades para a guitarra portuguesa que Carlos Paredes edita, em 1967, um primeiro álbum. Filho de Artur Paredes (um dos grandes mestres da guitarra coimbrã), herdeiro, de resto, de uma ainda mais vasta linhagem familiar, Carlos Paredes tinha estudado na Academia dos Amadores de Música e na Juventude Musical Portuguesa, tocado com o pai em programas de rádio (a partir de 1949), mas iniciara, entretanto, uma atividade profissional que em nada se relacionava com a música, trabalhando como funcionário administrativo no hospital de São José. Militante comunista, é denunciado (por um colega de trabalho) e detido pela PIDE em 1958. Na cela compõe mentalmente, até que é solto em 1959. Três anos depois regista pela Alvorada o seu primeiro EP e, em 1963, grava, num segundo EP (pela mesma editora), quatro temas por si compostos e interpretados (com acompanhamento por Fernando Alvim) para a banda sonora do filme Verdes Anos, de Paulo Rocha. Segue-se um silêncio (discográfico) de quatro anos até que em 1967, agora pela Valentim de Carvalho, regressa a estúdio, desta vez para gravar um LP.

         O disco, gravado por Hugo Ribeiro nos estúdios em Paço de Arcos, e editado em 1967 com o título Guitarra Portuguesa, traduz ecos de um tempo de desafio e aventura na música de Carlos Paredes. Os ecos (naturais e familiares) de Coimbra ainda se sentem ocasionalmente como, por exemplo, nas Variações em Ré menor que abrem o alinhamento do lado A e até na própria afinação da guitarra. Porém, as novas composições, que interpreta com acompanhamento à viola por Fernando Alvim, desenham demandas mais abstratas e desafiantes, exploram detalhes, desenham miniaturas. As peças acentuam o virtuosismo do intérprete, mas ao mesmo tempo traduzem uma maior liberdade para o compositor. Era como se a guitarra fosse uma “voz”. E, ali, cantasse variações sobre a liberdade.

O alinhamento é todo ele feito de inéditos, correspondendo a Canção Verdes Anos a um retomar de alguns motivos explorados em temas do EP com música do filme de Paulo Rocha. Sobre a data das composições o livro de Octávio Fonseca Silva sobre Carlos Paredes nota que os temas correspondem a trabalhos de composição posteriores a 1960, ou seja, quando começa a lançar visões para além dos universos de referências de Coimbra, tendo confirmado Fernando Alvim que até peças como as Variações em Ré menor ou Melodia nº 1 e Melodia nº 2, onde se sente mais evidente a herança coimbrã, datam igualmente desse período em que ambos começaram a trabalhar em conjunto.

         Uma das curiosidades desta estreia de Carlos Paredes na Valentim de Carvalho é a publicação, na contracapa, de um texto de Alain Oulman no qual o compositor recorda a ocasião em que, em casa de Amália, ele (e ela igualmente) escutaram Paredes pela primeira vez. Oulman diz ali: “Paredes pedia desculpa pela forma como tocara – o que faz muitas vezes, pois é o seu pior crítico – e, para acreditar em tanta modéstia, é necessário vê-lo e ouvi-lo. Tínhamos perante nós uma “voz” eletrizante em música portuguesa, auxiliada por um extraordinário virtuosismo”. E acrescenta depois: “O seu domínio da guitarra de Coimbra é extraordinário – basta escutar as Variações em Ré. Nenhum outro guitarrista é capaz de tocar a música de Paredes como ele o faz – e isto nada tem de surpreendente pois em Paredes não se pode separar o músico do guitarrista. Na sua música, porém, a sua técnica, sempre brilhante, esconde-se para dar lugar à precisão e clareza da melodia – os temas melódicos, plenos de sensibilidade e força de Fantasia, Porto Santo, Verdes Anos.

Com uma edição original em LP em 1967, “Guitarra Portuguesa” conheceu várias reedições em CD a partir de 1987. Em 2011 a norte-americana Drag City lançou uma reedição em vinil.

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