Eram assim os Duran Duran antes de Simon Le Bon…

Entre 2016 e finais de 2020 a Cleopatra Records lançou dois EPs com maquetes gravadas pelos Duran Duran em 1979. As gravações correspondem a uma etapa intermédia entre a formação original e a que, reunida apenas em 1980, faria história pouco depois. Texto: Nuno Galopim

O ano era o de 1979… A formação original, com Stephen Duffy como vocalista, tinha dado lugar a uma nova banda, longe ainda de mostrar o line up que lhes valeria o epíteto de fab five três anos depois quando as suas canções, discos e telediscos os levavam a um estatuto de glória planetária… Da etapa inicial, podemos escutar algumas canções no álbum Dark Circles que, em 2003, Nick Rhodes gravou com Stephen Duffy, assinando então como The Devils (e o reencontro soube-lhes tão bem que até criaram alguns temas novos). Faltava, contudo, conhecer a etapa seguinte. Antes da chegadas de Andy Taylor e de Simon Le Bom. E entre dois EPs, o primeiro deles editado em 2016, o segundo lançado na reta final de 2020, eis que finalmente essa questão fica resolvida… Ao ouvir estas canções, porém, fica claro que, tivesse sido este o seu destino, não estaríamos hoje (nem nunca) a falar dos Duran Duran…

A saída de Stephen Duffy tinha deixado cair por terra as canções que desde 1978 tinham estado a juntar para um eventual álbum de estreia. E foi preciso recomeçar do início, com canções novas. Os Duran Duran eram, em 1979, um quarteto que se apresentava como sendo constituídos por Nick (o teclista, que ainda assinava Nick Bates, o seu nome real), Nigel (o guitarrista, também ainda usando o nome que surge no BI, e que hoje conhecemos como John Taylor, o baixista do grupo), Roger (o baterista, este sem novidades pelo caminho) e Fang (o vocalista, na verdade de nome Andy Wickett)… Registadas em dezembro de 1979, as maquetes então gravadas no estúdio de Bob Lamb, em Mosley (Birmingham), documentavam o presente de uma banda que, num primeiro contacto, não parecia destacar-se muito da multidão que, na ressaca dos acontecimentos colocados em cena pela revolução punk, davam agora novos passos, a bordo da maré new wave. Ou pós-punk, como lhe quiserem chamar.

Pareciam uma banda relativamente banal, igual a tantas outras… Mas, escutando com atenção, notavam-se ali sinais de que algo podia estar latente e que, podia faltar apenas um ou outro elemento para que o que estivesse ainda toldado pudesse eventualmente emergir. Mas a voz era o elo mais fraco.

Do EP de 2016 escute-se 2016 See Me, Repeat Me. É a melhor canção de todo este lote de oito, animada por uma programação rítmica que sugere assimilação de heranças do disco e à qual falta apenas uma mais pungente relação entre o baixo e a bateria para desafiar a dança. É contudo nas linhas elegantes para teclas que descobrimos sinais da emergente identidade dos Duran Duran, mostrando já ali Nick Rhodes algumas marcas da sua assinatura autoral. Se dissermos depois que a canção está na base de um processo de evolução que culminaria no tema-título do segundo álbum da banda, ou seja, Rio, fica tudo dito. Estava ali uma gema preciosa em potência. Latente.

O outro episódio significativo da primeira coleção de quatro maquetas de 1979 dos Duran Duran de revela-se numa versão antiga de Girls on Film. Sim, já com o título da canção que chegaria a disco em 1981, embora com uma letra completamente diferente e uma estrutura consideravelmente modificada. As teclas já desenham aqui a melodia do refrão e a guitarra já respira os apetites de escola funk que, sublinhada pela presença de novas marcas disco na secção rítmica, definem mais outra peça promissora. Porém aqui numa versão na qual só o refrão parece resultar em pleno. Não admira que tenha sido aí que houve menos mexidas… A maquete inclui outros dois temas que o tempo deixou entretanto esquecer. Working The Steel, e Reincarnation, com teclas em sentido com o que os Ultravox fariam por essa altura.

Do segundo lote de maquetes que o EP lançado em finais de 2020 nos mostra não há na verdade muito mais a acrescentar. Há um ambiente interessante definido pelas teclas em Dreaming Of Your Cars, tema que Andy Wickett trouxe da sua banda anterior (os TV Eye) no qual as guitarras e baixo sugerem ecos jamaicanos então em voga em algum terreno new wave. X Disco parece aproximar-se mais dos caminhos de uma pop animada a disco que os Duran Duran tomariam logo depois… To The Shore, por sua vez, é uma base de trabalho para a canção que emergiria com o mesmo título no álbum de 1981. O fundo de teclas já sugere o rumo que a canção tomaria, mas a voz aqui é um desastre. Love Story é mais um momento inconsequente no qual (uma vez mais) só as teclas sugerem que aqui estão os Duran Duran…

Ao escutar, em 1979, um lote de maquetes como estas, um editor, um jornalista, um promotor de concertos, teria a certeza de que estava em mãos com uma banda em sintonia com os movimentos e tendências ao seu redor, embora revelando as maiores sugestões de promessa no trabalho das teclas. O vocalista era aqui o evidente elo mais fraco. A bem de todos (e de duas destas canções), felizmente a formação da banda continuou a viver episódios de mutação. A entrada de Andy Taylor para a guitarra (e consequente desvio de atenções de John para o baixo) e a troca de Andy Wickett por Simon Le Bon representaram as peças em falta. O que estava adormecido acordou. E, 14 meses depois desta maqueta ter sido gravada, o single Planet Earth mostraria como a música tinha evoluído seguindo as melhores sugestões do que aqui estava ainda escondido.

Estes dois EP (que usam na capa um elemento gráfico desenhado por John Taylor para a capa da maqueta original) acrescentam ainda alguma informação sobre estes tempos, embora ao texto maior do disco de 2016 o novo volume acrescente apenas seis linhas de informação, compensando a coisa com uma foto de Andy Wickett na época.

“Girls on Film 1979 Demo” e “Dreaming of Your Cars – 1979 Demos Part 2”, dos Duran Duran, estão disponíveis em EP em vinil, CD e nas plataformas digitais em lançamentos da Cleopatra Reecords

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