Duran Duran “All You Need is Now” (2011)

Lançado digitalmente em finais de 2010 através de uma editora criada pela banda, com edição física em março de 2011, o álbum “All You Need Id Now” assinalou um episódio de busca de pistas na própria história discográfica dos Duran Duran. Texto: Nuno Galopim

O reencontro da formação clássica em 2001 abriu espaço a uma nova (e mais intensa) vida de palco para os Duran Duran e gerou em 2004 Astronaut, um quarto álbum criado com os mesmos músicos que, entre 1981 e 1983, tinham já assinado Duran Duran, Rio e Seven and The Ragged Tiger. A (segunda) saída de Andy Taylor tinha feito de Red Carpet Massacre (2007) o primeiro disco de uma nova etapa a quatro… Mas, terminada a ligação à Sony Music, os Duran Duran estavam, tal e qual após Pop Trash, de 2000, sem editora que assegurasse o lançamento de um novo disco. Resolveram que esse não seria motivo para o não fazer. E na era do do it yourself, usaram a sua própria etiqueta, a Tape Modern, para editar um disco que, mais do que os de 2004 e 2007, acabou por traduzir de forma mais fiel, os ecos da memória da formação clássica da banda e dos seus melhores episódios criativos.

Se é lícito que aos Rolling Stones se elogie, e com razão, o “back to the basics” que ditou os rumos do álbum A Bigger Bang ou, a David Bowie, o reencontro que o devolveu aos caminhos de um Hunky Dory nos dias de hours… ou mesmo, a Madonna, que enfrentou a “sua” Nova Iorque dos oitentas em Confessions On A Dance Floor, porque não aplicar a mesma lógica aos Duran Duran no momento em que, largos anos depois, finalmente apresentaram um disco que os devolveu aqueles que foram os momentos que confirmaram a definição das linhas mestras da sua identidade? Ou seja, ao soberbo Rio, álbum de 1982 frequentemente apontado como a obra-prima do grupo (estatuto que, na verdade, deveria ser repartido com o não menor álbum de estreia, de 1981, outro daqueles raros discos cujo alinhamento não revela um único passo ao lado).

Para um grupo que, apesar dos altos e baixos, e das alterações que conheceu internamente depois de 1985, até ao reencontro da formação original e, entretanto, a estabilização no line up a quatro nos últimos anos, nunca na verdade deixou de se manter activo – e ao contrário de tantos outros seus contemporâneos nunca optando por estratégias de mera capitalização do poder na nostalgia “quarentona” – , os Duran Duran são um raro caso de sobrevivência criativa entre as bandas da sua geração. Tal como o sucesso os brinda em ciclos, uns mais favoráveis, outros nem por isso, também as ideias parecem caminhar entre as melhores e as menos inspiradas nas horas de gravar discos. E ao longo dos anos pós-duranmania (período de triunfo global entre 1981 e 85) tanto nos deram o pior (Liberty, de 1990 ou Pop Trash, de 2000) como o melhor (Medazzaland, de 1997 ou Red Carpet Massacre, de 2007), estes dois últimos discos, por razões distintas, representando contudo casos em que o sucesso não reconheceu o seu potencial. Medazzaland, de 1997, foi o mais “alternativo” dos discos do grupo na década dos noventas em que uma nova geração neles encontrava uma banda apontada pelo dedo por admiradores como Billy Corgan (Smashing Pumpkins) ou Courtney Love (Hole). Mas chegou numa altura de desentendimentos e consequente divórcio com a editora que os acompanhara desde o início, o álbum não chegando sequer a ser editado na Europa. Red Carpet Massacre, onde colaboravam Timbaland ou Justin Timberlake revelava uma aproximação às linguagens pop da década dos zeros, traduzindo ainda uma antiga relação com ecos do rhythm’n’blues que sempre habitaram a música dos Duran Duran (com expressão maior em Notorious, de 1986). Contudo, à menos feliz escolha de single de apresentação juntou-se um surdo silêncio na hora de se esperar o segundo (e certo) single, que deveria ter sido Nite Runner, o álbum acabando mais perto do massacre que da passadeira vermelha…

Longe de uma grande editora, o 13º álbum dos Duran Duran chegou em finais de 2010 sob uma expectativa criada mês após mês ora através de clips ‘making of’ postados na Internet, ora pelo entusiasmo com que Mark Ronson, o produtor, ia descrevendo os trabalhos, a ele cabendo a frase que apontava o disco como o sucessor de Rio que nunca havia sido criado (ideia que, sabemos hoje, foi de resto o desafio central que então lançou à banda).

Apesar da angulosidade contemporânea do tema-título, da recontextualização pop uma alma mais disco em Safe (In The Heat Of The Moment), em dueto com Anna Mantronic dos Scissor Sisters, e da pouca surpresa da balada Leave A Light On, o tutano de All You Need Is Now é puro e clássico Duran Duran. Vintage nas referências colhidas na sua memória, o irresistível Blame The Machines retomando o viço de um Hungry LIke The Wolf (se bem que em regime mais electrónico do que eléctrico), o belo The Man Who Stole A Leopard continuando a história onde The Chauffeur a deixara nas últimas notas de Rio… Pelo caminho há ainda novos sinais de uma antiga (boa) relação com uma noção de pop luminosa e dançável em canções como Being Followed, Runaway Runaway ou Girl Panic e uma sumptuosa balada em Before The Rain

Guitarras e electrónicas em diálogo, melodias feitas de luz e alma pop, detalhes de filigranas para teclas e cordas (cortesia Nick Rhodes) e, cereja sobre o bolo, refrões que ninguém poderá dizer que não são classic Duran Duran. Com um alinhamento inicial de nove canções (como o de Rio), o álbum começou por surgir apenas com edição digital, sendo desde logo anunciado que haveria temas adicionais na edição física (em CD e LP) que chegou a 21 e 22 de março, respetivamente na Europa e EUA.

A edição física juntou então novas pérolas ao alinhamento, das paisagens ambientais de Mediterranea (entretanto revelada no EP digital From Mediterranea With Love, lançado em finais de 2010) ao clima pop dançável de Other Peoples Lives ou Too Bad You’re So Beautiful (esta uma herdeira clara de uma ideia de perfeito diálogo entre guitarras e electrónicas de um Hold Back The Rain). De novo o LP e CD juntaram ainda ainda os interlúdios instrumentais A Diamond In The Mind e Return To Now, variações em torno do tema título com arranjos orquestrais de Owen Pallett (igualmente presente em The Man Who Stole a Leopard). Menos interessante, e até mesmo algo deslocada da ideia com perfil de intensidade mais rock que cruza o disco, Networker Nation parece-se mais com as canções menos bem nascidas que fizeram dos discos do grupo nos anos 90 casos de complicada bipolaridade.

All You Need Is Now pode não ter repetido as ousadias de Medazzaland ou Red Carpet Massacre, apostando claramente no reencontro com ecos de uma genética que, na verdade, é a sua. Mas revelou a melhor coleção de canções dos Duran Duran desde os dias de Rio. Mark Ronson tinha mesmo razão quando lhes lançou o desafio.

Um pensamento

  1. Bem sei que não é deste disco que se fala diretamente. Mas já que se o refere, cá vai.
    O Medazzaland deveria ter sido o sucessor direto do The Wedding Album. Creio que teria mantido o momentum daquele absolutamente impensável comeback (em 1993, praticamente tudo o que cheirasse a “anos 80” estava no index). E, quem sabe, os Duran Duran não estariam, nos dias que correm, no mesmo patamar mais “clássico” dos Depeche e a encher grandes arenas por si mesmos. São várias as vezes que isso me ocorre, de cada vez que o tópico Duran Duran vem à baila.

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