O regresso a Christiane F não olha os abismos do texto original

Uma nova série (disponível na HBO) reinventa as memórias de Christiane F numa abordagem menos crua e suja do que as palavras do texto original ou as imagens do filme que em 1981 Uli Edel realizou diretamente a partir do livro de Christiane Vera Felscherinow. Texto: Nuno Galopim

Foi de um testemunho autobiográfico de Christiane Vera Felscherinow que nasceu um dos livros que mais marcou a geração que viveu os dias de juventude entre finais de 70 e inícios dos anos 80. Com ação focada na Berlim Ocidental de meados dos anos 70, numa trama que nem sequer observa as questões da vida numa cidade rodeada por um muro que caracterizam a esmagadora maioria das histórias berlinenses nos anos da Guerra Fria, a história de Christiane F – que entre nós surgiu em livro com o título Os Filhos da Droga – foca-se sobretudo em circuitos vivenciais de uma muito jovem rapariga alemã que progride na dependência de uma série substâncias, observando inclusivamente a morte por overdose de alguns dos seus amigos. Os ambientes da cidade, em particular os espaços em volta da estação de U-Bahn e S-Bahn do Zoo (uma das mais movimentadas do centro de Berlim), espaço de engate e prostituição ou a presença local de Bowie como um “deus pop” que escolhera naquele tempo aquela cidade como residência, são elementos de um contexto que abraça a narrativa e que as palavras publicadas em livro logo sublinharam. Palavras, ambientes e figuras que cedo tiveram uma primeira expressão no cinema em Christiane F, um filme de 1981 de Uli Edel no qual o próprio David Bowie surge na pele de si mesmo, cantando Station to Station num concerto que representa um momento determinante no desencadear da trama que então mergulha literalmente nos abismos da dependência.

            A história de Christiane F pode ter ainda ressoado entre leitores que chegaram ao livro de Christiane Vera Felscherinow nos anos 80, altura em que a própria chegou a ter uma breve carreira na música. Mas com o tempo as vivências vividas entre dependência na Berlim dos setentas talvez tenham passaram a respirar um tom de memória, não perdendo contudo nunca um lugar na caracterização da história daquele tempo. A dos factos. Mas também a das imagens e a da música… A edição em disco da banda sonora do filme e as vidas (reeditadas) desta compilação feita de canções e temas instrumentais de Bowie conquistou um lugar de memória que não de dissocia nem das imagens do filme de Uli Edel nem da história verídica que o livro originalmente retratou em 1978.

            Agora, 40 anos depois do filme Christiane F, uma nova abordagem à trama e às personagens surge numa série que, apesar de retomar o título original do livro – Wie Kinder vom Banhof Zoo – resolve contudo juntar ingredientes que acrescentam liberdades criativas (o que à partida pode não ser mau) e cruzamentos de épocas aliando a memória dos dias dos factos verídicos a um futuro que imaginamos mais próximo do nosso presente.

            Com algumas figuras reinventadas, por vezes com outros nomes e com histórias pessoais que juntam mais ingredientes à trama, o novo mergulho na história dura e suja que o livro de 1978 e o filme de 1981 retratavam surge, mesmo sob a assombração da dependência e do que a rodeou neste caso, numa moldura mais… leve. Se a visão da discoteca Sound – igualmente presente no filme original – revela um exterior fiel à memória de 70, mas um interior com look e música que são coisa do século XXI, já o suavizar do tom niilista, frio e imundo das almas e espaços que encontrávamos no filme de 81 dão agora lugar a uma narrativa que, mesmo visitada pela tragédia, quer antes ver luz ao fundo do túnel. A assombração visceral que incomodava dá assim lugar a um drama mais confortável que não consegue assim traduzir para o tempo presente as sensações de horror, desespero e desistência que cruzaram as vidas que orbitavam em torno de Christiane F.

            Nota para a música que valoriza a presença de Bowie nos primeiros episódios – e tem até um ator a vestir-lhe a pele numa sequência que imagina o momento que antecede um concerto seu – mas que depois aposta sobretudo nas paisagens que o alemão Robot Koch compôs para uma banda sonora na qual se destaca uma versão de Modern Love, na voz de Delhia de France.

Um pensamento

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