E, 20 anos depois, este corpo (ainda) não envelheceu

Para assinalar a passagem de vinte anos sobre a edição do histórico “Bodily Functions”, de Herbert, um dos mais inspirados discos de música eletrónica da aurora do século XXI regressa numa nova reedição no formato de álbum triplo, em vinil. Texto: Nuno Galopim

O cenário era idílico, mas foi real (e inesquecível). Depois de uma noite de outras músicas, atuações e concertos, a aurora rompia a escuridão em plena mata, despertando o dia ao som da música de Herbert. Quem esteve no Meco (na verdade Alfarim fica mais perto do local) naquela manhã de junho de 2001 não só guardará memórias desse momento como do disco que em grande parte ali nos levara… Bodily Functions. Não era o primeiro de Matthew Herbert, dispensando-nos assim daqueles instantes da surpresa absoluta (esses tinham acontecido uns cinco anos antes, ao som de 100 Lbs). Mas, e depois do não menos cativante Around The House (1998), levava ideias ainda mais longe tanto na criação do conceito que as sustentava como no modo de as transformar em peças musicais, umas a ganhar a forma de canções, outras a desenhar ambientes e espaços instrumentais que alargavam as possibilidades deste território que nascia de uma premissa: captar sons criados pelo corpo humano e deles fazer música. E do mergulho interior no corpo, abriam-se espaços inesperadamente vastos de possibilidades…

              Contando com a (preciosa) colaboração vocal de Dani Siciliano e de uma série de instrumentistas convidados, juntando às novas visões e conceito um saber sólido no domínio da composição e até mesmo do piano, revelando uma arquitetura sobretudo definida pela house como estrutura, porém acrescentando frequentemente aos cenários uma vibração jazzy, que de resto é brisa frequente em diversas criações do músico, Herbert criou em Bodily Functions um daqueles raros álbuns que marcam um tempo e uma obra. E por mais discos e ideias brilhantes que continue a apresentar – e não têm faltado, acrescente-se – aquele momento marcou um episódio particularmente feliz.

              Tal como na experiência vivida perto do Meco, o álbum abre com um tema criado ao raiar da primeira luz do dia. You’re Unknown To Me é a porta para um percurso que, não deixando aqui e ali de nos fazer refletir sobre as fontes dos sons, na verdade acaba sobretudo por nos mergulhar na música que, faixa a faixa, desvenda um dos mais inspirados discos de música eletrónica do início do século. Agora, vinte anos depois, uma reedição em triplo vinil sugere um reencontro com esta música. É “cliché” velho nestas coisas dos discos dizer que o tempo passou bem por esta música… E, de facto, e por incrível que possa parecer, em vinte anos este “corpo” não envelheceu.

“Bodily Functions” de Herbert, está novamente disponível numa reedição em 3LP pela Accidental.

Um pensamento

  1. É “cliché” velho nestas coisas dos discos dizer que o tempo passou bem por esta música… E, de facto, e por incrível que possa parecer, em vinte anos este “corpo” não envelheceu.

    Mas é um cliché bem mais verdadeiro (arriscaria até dizer lógico) do que o profundamente irritante “um disco intemporal”. A intemporalidade é o maior mito que existe em tudo e mais alguma coisa. Não há nada que não carregue dentro de si as marcas do tempo em que foi feito. O que depois distingue a arte que perdura mais da que perdura menos é a força da sua matriz e a (eventual) influência que possa ter tido posteriormente. Daí o bem mais correto “envelheceu bem”.

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