Editado em 1983, incluindo singles que geraram clássicos como “Vacanze Romane” e “Elettrochoc”, o sexto álbum dos Matia Bazar assinala a rendição do grupo às eletrónicas, tendo representado o início de uma etapa de enorme sucesso local. Texto: Nuno Galopim

Com berço em Génova em meados dos 70, nascidos das cinzas de uma banda de rock progressivo (os Jet, de vida bem curta), os Matia Bazar são hoje uma verdadeira instituição no cenário pop/rock italiano, caminhando para os 50 anos de carreira (a assinalar em 2025). Desde cedo marcados pelas características vocais de Antonella Ruggiero (que então criou o alter ego Matia, nome com identidade de género indefinida) o grupo, que tinha em Carlo Marrale (voz e guitarra) outro dos seus rostos de maior protagonismo, cativou cedo atenções, editando um single de estreia em 1975 e um primeiro álbum em 1977, ano em que passam pela primeira vez pelo Festival de San Remo, regressando em 78, conquistando aí a vitória. No ano seguinte representam a Itália na Eurovisão com “Raggio di Luna”, que não consegue mais do que um discreto 14º lugar. Por essa altura, pontualmente, as eletrónicas começam a irromper em algumas das suas canções, num processo que se torna mais evidente em “Berlino, Parigi, Londra”, sexto álbum, editado em 1982, que corresponde ao final de uma primeira etapa de vida com a contribuição do teclista Piero Cassano (que terá segunda vida na banda entre 1999 e 2017). O passo seguinte, que chega na forma do álbum ao qual chamam “Tango”, assinala o ano de 1983 como o início de uma etapa de sucesso maior na vida dos Matia Bazar, culminando com o êxito internacional registado em 1985 com “Ti Sento”.
O álbum que enceta uma nova etapa nesta história em 1983 abre ao som de “Vacanze Romane”, canção que representara a quarta participação do grupo em San Remo, desta vez alcançado o 4º lugar na tabela final. A canção assegura-lhes também o Prémio da Crítica e, apoiada por um teledisco surge num single editado antes da chegada do LP “Tango”. “Vacanze Romane”serve assim de porta de entrada a um álbum que traduz uma clara rendição dos Matia Bazar às novas possibilidades que a eletrónica colocava em cena, sublinhando uma deriva do grupo mais evidente do que até então para os terrenos da canção pop. As novas opções não descartam a continuação da exploração das características de soprano de Antonella Ruggiero, que de resto asseguram a “Elettrochoc”, outro dos singles extraídos deste álbum, uma das suas principais assinaturas (na hora do refrão). Também incluído no alinhamento do álbum, “Il video sono io” completa depois o trio de canções que asseguram visibilidade suficiente a “Tango”, que então se transformou no disco mais vendido em Itália nesse ano (sendo mais tarde reconhecido pela edição local da Rolling Stone como o 72º melhor num a lista dos cem melhores álbuns da música italiana). Os três temas não esgotam contudo a lista de momentos dignos de atenção de um álbum que traduz um tempo de sintonia europeia em torno de uma ideia pop que tanto procurava a comunicação de massas como ousava desafiar (sobretudo pelos novos sons e linguagens de produção), as formas até então dominantes tanto da canção ligeira como em clima pop/rock. O, tango, que de facto caminha nas entrelinhas de “Tango nel fango” ou o devaneio de ambição épica que encerra o alinhamento em “I bambini di poi” são mais dois exemplos de um disco que, num tempo de relativa invisibilidade internacional da música italiana (quando comparado com memórias dos anos 50 e 60), viveu sobretudo a sua comunicação dentro de fronteiras.
Dois anos depois o sucesso de “Ti Sento”, a nova geração italo pop e uma série de vozes de grande apelo mainstream (de Gianna Nannini a Eros Ramazzotti, antes mesmo de Laura Pausini ou Jovanotti) assegurariam uma reabertura de atenções para a música italiana. O contexto, contudo, não diminui os feitos deste “Tango”, um álbum a ter em conta ao lado de discos de contemporâneos como os espanhóis Mecano, os franceses Indochine, os belgas Telex, os holandeses Time Bandits, os portugueses Da Vinci ou os suíços Yello, como exemplos de movimentações pop que mostram como há muito mais a dizer sobre a história da pop eletrónica, por oposição a relatos made in UK tantas vezes com dificuldade a escutar o que se passa do lado de lá do Canal da Mancha e que, pelo poder de comunicação da imprensa musical ‘brit’ tantas vezes definem retratos de época que, assim, de revelam claramente incompletos.





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