No dia em que sopra as 50 velas, Andrew Bird passa pelo Gira Discos, que aqui evoca “Hands of Glory”, disco gravado no seu celeiro e que surgiu em 2012 como companheiro de “Break it Yourself”, editado apenas alguns meses antes. Texto: Nuno Galopim

Há tradições que Andrew Bird gosta de cumprir. Uma delas é coisa coletiva, ganhando forma em pausas da agenda de palcos quando reune a sua banda na quinta que tem no Illinois onde criou o seu refúgio e principal espaço de trabalho criativo. A outra é uma vontade em fazer acompanhar os seus álbuns com discos-companheiros. E tal como ao belíssimo “Noble Beast” (de 2009) juntou, um ano depois, “Useless Creatures” (uma aventura instrumental que transcendia as fronteiras da canção), em 2012 somou a “Break It Yourself”, o não menos belo “Hands of Glory”, um conjunto de oito canções entre as quais encontramos alguns originais, novas leituras de composições suas ou versões (dos Handsome Family, Carter Family ou Alpha Consumer).

A aventura começou dessa vez numa sessão de gravação numa pequena igreja em Louisville da qual resultaram os dois primeiros temas do disco. Seguiu-se o encontro já habitual no velho celeiro (devidamente transformado) na sua quinta, com os elementos da banda essencialmente apoiados por instrumentos acústicos e tocando em volta de um mesmo microfone. O minimalismo dos recursos contrasta aqui com a expressividade e força das canções que traduzem essencialmente ligações a genéticas da folk e da country (espaço reforçado pela escolha das versões).

Onde o disco-companheiro de “Noble Beast” expressava, mais do que um jogo de contrastes, um espaço de invenção distinta (indiciando possíveis experiências a retomar mais adiante, apesar do piscar de olhos a esses climas que aqui faz no espantoso “Beyond the Valley of the Three White Horses”), “Hands of Glory” sugere antes um reforço das teses de uma simplicidade formal que sublinha marcas de identidade autoral que “Break It Yourself” já sugerira nesse mesmo ano. Estamos perante memórias de um músico inspirado e dedicado à construção de uma obra que entretanto de si fez já um dos mais interessantes e inspirados cantautores do nosso tempo.

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