Editado em julho de 1973, “Berlin” não repetiu o impacte popular de “Transfomer”, mas foi um título determinante para o seu percurso pessoal e também artístico, tanto como músico como enquanto poeta. Hoje é reconhecido como um dos seus melhores discos. Texto: Nuno Galopim

Em Agosto de 1970, depois de uma actuação no Max’s Kansas City, e a dias do lançamento do álbum “Loaded”, Lou Reed abandonava os Velvet Underground e tomava os rumos do seu caminho nas suas próprias mãos. O seu primeiro disco a solo, editado não muitos meses depois, já em 1971, foi contudo, em todos os planos, uma desilusão. Desnorteado, recuperava essencialmente temas menores já ensaiados antes com os Velvet Underground e em nada igualava os mesmos patamares de visão e fulgor. O passo seguinte, contudo, mostraria um Lou Reed novamente em forma, lançando as bases definitivas para a afirmação de uma carreira que o mitificaria como um dos maiores poetas da história do rock. Adjuvado por David Bowie, um admirador confesso dos Velvet Underground, e pelo seu guitarrista de então Mick Ronson, Lou Reed reinventou-se em “Transformer”, disco de 1972 onde registou cenas da vida e alma do outro lado de Nova Iorque, definindo retratos de uma época e de uma maneira de viver que aqui encontraram hinos de identificação. O disco revelou também uma materialização do espírito warholiano através de um dos seus protegidos musicais, com filtro aplicado por um dos seus grandes admiradores deste lado do Atlântico. O tempo em que nasceu, o olhar maquilhado de Lou Reed na imagem da capa e a presença de Bowie rotularam “Transformer” como sendo um álbum de glam rock. Porém, do glam rock o álbum herdou apenas um novo público que então descobriu Lou Reed e o adoptou, transformando-o numa estrela planetária. Mas, um ano depois, num disco completamente diferente, Lou Reed seguiria o seu caminho.

Depois de “Transformer”, Lou Reed não se mostrou muito interessado num projeto de eventual reunião dos Velvet Underground que chegou a ser ventilado. Meses antes, ainda em 1972, tinha-se chegado a reunir-se com John Cale e Nico, dali resultando uma atuação histórica no Bataclan (Paris), cuja gravação, durante anos, circulou como “Bootleg” até que mereceu edição oficial em 2004. Novo encontro com John Cale estava agora na linha do horizonte. Este, desde que se afastara dos Velvet Underground, este tinha já editado os álbuns “Vintage Violence” (1970) e “The Academy in Peril” (1972) e preparava-se para lançar “Paris, 1919”. Cale só aceitaria uma reunião do grupo se as suas ideias pudessem ser usadas, não lhe parecendo interessante um estatuto como mero intérprete das ideias do velho companheiro. Mas o encontro não se materializou, nem sequer, depois, a colaboração solicitada, mas não concretizada, de Lou Reed em “Fear”, o álbum que Cale editaria em 1974.

Sem reencontros na agenda, em 1973 Lou Reed focou as suas atenções na criação de um novo disco, nele procurando projetar novos interesses sobre os efeitos gerados no corpo pelos consumos de algumas substâncias. Bob Ezrin, produtor, terá sido quem lhe sugeriu a criação de uma narrativa de ficção contada na forma de um ciclo de canções. E o título representaria o cenário que acolhia a história. E os caminhos apontaram a Berlim… Centrado em duas personagens (Jim e Caroline) e no seu relacionamento, “Berlin” convoca imagens tensas que envolvem situações de violência física e mental, depressão, suicídio, havendo quem aponte ali questões que o próprio Lou Reed estaria a lançar sobre si mesmo e a ponderar eventuais decisões a tomar. Ele mesmo contaria mais tarde que, durante a gravação do disco, a sua mulher fez uma tentativa de suicídio, cortando os pulsos numa banheira de um hotel. 

As canções abordavam de facto temas em aberto, feridas não saradas. A instrumentação é mais elaborada que a usada em “Transformer”, transportando a música para um novo patamar. E uma certa simplicidade, que era característica da sua linguagem, ficava aqui por conta da abordagem realista ao universo ao seu redor que se materializava entre as canções, já que a música segue por caminhos mais desafiantes, envolvendo um grupo alargado de músicos e de instrumentos. Contudo, apesar da grande proximidade entre o cantor, as temáticas e as situações narradas, Lou Reed colocou em cena um narrador que se distanciou de si mesmo, assumindo o papel de um observador sem se comprometer emocionalmente com as personagens, lugares e situações. Tanto que, em “Man of Good Fortune”, chegava mesmo a afirmar que “não se importa com nada”. “Berlin” é, apesar da ficção que atravessa a narrativa, um disco franco e poderoso. Encara nos olhos cenários de decadência, dependência e morte.

Foi um álbum doloroso de fazer, confessaria ele mesmo um ano depois, acrescentando que teria enlouquecido se o não tivesse feito. Ao contrário do que sucedera com o anterior “Transformer”, “Berlin” passou bem longe dos lugares mais visíveis das tabelas de vendas. Hoje é um dos clássicos maiores da sua obra. O próprio Lou Reed reconheceu o estatuto que o álbum conquistou com a passagem do tempo, tendo criado entre 2006 e 2007 uma digressão na qual o voltou a interpretar de fio a pavio, concretizando um sonho levantado por ele e pelo produtor Bob Ezrin por alturas da edição do disco, tendo as fracas vendas e as opiniões pouco entusiasmadas da crítica obrigado a deixar a ideia na gaveta. Perante a receção à digressão finalmente concretizada e à forma como o disco passara a ser encarado, o realizador Julian Schabel foi chamado para documentar, entre sons e imagens, uma das noites de concerto, assim nascendo o filme-concerto “Berlin – Live at St Ann’s Warehouse”.

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