Estreada em 1935, gerando inicialmente focos de crítica, depois uma multidão de gravações novas versões de canções ali nascidas, “Porgy and Bess”, de Gershwin, conheceu a primeira edição da sua interpretação integral neste disco triplo de 1977. Texto: Nuno Galopim

No início do século XX uma série de compositores norte-americanos procuravam caminhos para a criação de uma identidade musical “americana” distinta, portanto, das formas de origem europeia que, até então, haviam caracterizado muita da criação dos músicos do Novo Mundo. George Gershwin (1898-1937), que dera os primeiros passos compondo canções populares e colaborando com os espaços do teatro musical, propôs em 1924, com “Rhapsody In Blue”, um diálogo entre linguagens que, de certa forma, reflectia a realidade de uma cultura feita da soma das que à sua volta conviviam. Muito simplesmente, integrou sugestões do jazz numa composição orquestral com alicerces na tradição clássica ocidental. Anos antes, de visita aos EUA em finais do século XIX, já Dvorák tinha sentido que um dos caminhos a tomar pela música americana passava pela procura de inspiração nas culturas negra e nativa. Gershwin integrou sugestões jazzísticas em várias outras obras posteriores a “Rhapsody In Blue”, aprofundando o diálogo entre formas, definindo aí a sua identidade. E, onze anos depois dessa obra marcante, apresentou outra, hoje igualmente tida como uma das referências da música norte-americana. Apresentava-a como uma ópera “negra”. Era “Porgy & Bess” que, com elenco integralmente constituido por cantores afro-americanos, reveleva, além do jazz, a assimilação de elementos dos blues, de espirituais e de canções de trabalho numa peça clássica de grande escala. Envolta em polémica desde cedo, criticada por alguns como “racista” (pela forma como retrata as personagens), tendo elementos do elenco original referido em concreto a sensação de estar a vestir a pele de estereótipos, a ópera só com o tempo conquistou a o estatuto de reconhecimento com que hoje é encarada. Inegável foi, contudo, a sua popularidade desde os primeiros tempos, gerando várias produções e, acima de tudo, fazendo de “Summertime num dos mais aclamados standards do século XX, somando hoje milhares de versões gravadas.

Filho de judeus russos emigrados nos Estados Unidos, George Gershwin chamava-se na verdade Jacob Gershowitz. O seu interesse pela música começou cedo. E o seu primeiro trabalho levou-o a promover canções para uma das muitas companhias de publishing da cidade. Pouco depois apresentou temas de sua autoria, obtendo um primeiro êxito em 1917 com Riatlo Ripples. Estudava já piano e coposição e, atento às novas formas musicais e à vida da cidade de Nova Iorque, em pouco tempo revelava-se capaz de traduzir, pela sua música, o tempo e lugar onde vivia. Nos anos 20 assinou uma série de musicais de grande impacte na Broadway, estabelecendo uma parceria com o irmão Ira, letrista, que inevitavelmente manteve na hora de trabalhar em “Porgy & Bess”.

A ideia de fazer uma ópera nasceu depois de ter livro o romance Porgy, de DuBose Heyward, um autor da Carlina do Sul. Juntos começaram a desenvolver os planos para uma ópera folk, assente na história de amor entre um negro que vive num bairro pobre de Charleston (na Carolina do Sul) e uma mulher, Bess, a amante de um violento dealer. Em 1927 uma primeira dramatização do romance chamou a atenção de muitos. E, pouco depois, Gershwin, o irmão e o casal Heyward, começavam a trabalhar. No Verão de 1934, chegaram a passar uma temporada perto de Charleston, para sentir os climas vivenciais, sociais e culturais da região… E poucos meses depois, em setembro de 1935, a ópera estreava em Boston, antecipando a chegada à Broadway, onde a produção original conheceu 124 espectáculos.

A produção original, de 1935 foi o ponto de partida para uma vida que ainda hoje faz de Porgy & Bess” uma fonte de acontecimentos. Sucederam-se as produções, com alguns momentos da música revistos por Gershwin. As primeiras gravações em disco datam logo do ano da estreia, todavia por cantores brancos. O elenco original chegou a disco só em 1940, quando a ópera foi reposta na Broadway. Apesar das reacções críticas de muitos músicos afro-americanos, nos anos 50 começaram a surgir versões de canções da ópera em disco. Em 1957, Louis Armstrong e Ella Fitzgerald gravaram um álbum com canções de “Porgy & Bess”. Com realização de Otto Preminger, a ópera chegou ao cinema em 1959. O sucesso no grande ecrã gerou ainda mais versões, sobretudo de Summertime”, que surgiu em discos de figuras como Nina Simone, John Coltrane, James Brown, os Zombies, Peter Gabriel, os portugueses The Sheiks ou Joni Mitchell. Nina Simone gravou um disco com versões de “Porgy & Bess”. Em 1984 os Bronski Beat esitaram em single uma versão de “It Ain’t Necessairly So”. Entre as muitas gravações da ópera conta-se esta, editada em 1976 pela Decca, contando, entre outras, com as vozes de Barbara Hendricks, Arthur Thompson, Barbara Conrad ou Francois Clemmons. Lorin Maazel dirige aqui a Cleveland Orchestra naquela que foi então a primeira edição em disco de uma interpretação da totalidade de “Porgy and Bess”.

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