Originalmente editado em 1971 o primeiro do par de álbuns que documenta a etapa que Caetano Veloso viveu exilado em Londres reflete um tempo de vida assombrada pela distância e pela saudade. Uma memória no dia do seu 81º aniversário. Texto: Nuno Galopim

Entre 1968 e 1971 Caetano Veloso músico lançou três álbuns, todos eles bem diferentes entre si, com apenas o seu nome como título. Para que não haja dúvidas este é o disco de 1971 que muitas vezes é evocado pelo título da canção que abre o alinhamento: “London London”. Este é um disco que, tal como “Transa”, de 1972, corresponde a uma etapa de criação nascida durante o exílio que o músico viveu em Londres (que na verdade decorreu entre 1969 e 72). O álbum de 1971 é contudo um disco bem diferente do mais vibrante (e feliz) disco de 1972. “Caetano Veloso” fixa a memória de uma alma abatida pela distância, pelo afastamento. O exílio, se por um lado abriu possibilidades de descoberta in loco (da música que Londres lhe deu a escutar aos muitos artistas e intelectuais brasileiros que foram passando pela sua casa e cimentaram a sua formação ideológica), por outro era o cenário das consequências pessoais de um tempo em que o Brasil viva sob uma ditadura.

Mais do que a história das canções e da sua gravação, os capítulos londrinos do belíssimo “Verdade Tropical” (leitura obrigatória sobre Caetano Veloso) são uma boa proposta de enquadramento para entender não apenas a música deste álbum mas o tom melancólico que o assombra de fio a pavio. O calor e a cor tropicalista eram, já desde finais dos anos 60, experiências devidamente assimiladas, mas os tempos e o lugar deixaram espaço para outras manifestações, que Caetano tanto canta em português como, sobretudo, em inglês (com delicioso sotaque).

“Caetano Veloso” é o disco em que Caetano conquista o receio das suas eventuais limitações como guitarrista (e experimenta outros desafios)… E foi o entusiasmo dos ingleses e de um produtor americano que aqui falam em favor de uma conquista que, aliada à voz e às palavras, enchem de verdade os cânticos de saudade e dor que habitam estas canções. Ao cantar “A Little More Blue” (uma das primeiras canções que compôs após deixar o Brasil), a lembrar a irmã em “Maria Bethânia” ou a medir a distância numa versão de “Asa Branca”, de Luís Gonzaga, o disco capta a carga dessas memórias num alinhamento que serve também para saborear o prazer do cruzamento de linguagens como podemos escutar em “London London” ou “If You Hold The Stone” (que assimila e transforma “Marinheiro Só” que vinha já do álbum de 1969), momentos que lembram que, mesmo sob uma evidente depressão, a verve do explorador de sons não estava silenciada.

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