Não foi por acaso que se lhe chamou a “golden age”. Mas é verdade que, entre a reta final dos anos 80 e a alvorada dos anos 90 o universo do hip hop viveu momentos inesquecíveis que tanto podemos associar à descoberta destes terrenos por novos públicos e à conquista de um reconhecimento crítico mais alargado, como a um tempo de expansivo alargar de horizontes de muitos músicos ligados a estes espaços da invenção musical. Com uma visibilidade mediática que os pioneiros de alguns anos antes não haviam conhecido, discos de nomes como os Public Enemy, Eric B & Rakim, EPMD, De La Soul, Run DMC ou Beastie Boys tinham já colocado o género na linha da frente das atenções na segunda metade dos anos 80. E quando, em inícios dos noventas, uma nova geração de músicos descobria nos terrenos do jazz uma importante fonte de inspiração e também de matéria prima a trabalhar, assistimos à emergência de um dos mais nutritivos, inspirados e vibrantes movimentos entre os que a história do rap (e da cultura a si associada) já assistiu. Nomes como os A Tribe Called Quest ou Guru (dos Gang Starr) tornaram-se importantes líderes de uma nova mensagem que abriu portas à descoberta de outros contemporâneos, dos Digable Planets ao coletivo Us 3, juntando a bordo inclusivamente músicos de jazz como o guitarrista Ronny Jordan, o saxofonista Brandford Marsalis ou até mesmo o veterano Miles Davis (nos seus últimos anos de vida), num processo que galgou fronteiras e conheceu importante representação também na Europa (sobretudo França e Reino Unido) e com um mais distante, mas não menos interessante, pólo de agitação no Japão.

Muito por conta de “My Definition of a Bombastic Jazz Style”, uma canção irresistível, trabalhada sobre um sample de “Soul Bossa” de Quincy Jones, os canadianos Dream Warriors foram inicialmente encarados como uma das grandes promessas daquele momento. E o seu brilhante álbum de estreia, “And Now The Legacy Begins”, editado em 1991, visita de facto, com entusiamo e engenho, esses ecos do jazz, vincando ali um episódio de celebração de diálogos entre várias linguagens de um género que então atingia a sua plena maturidade. Musicalmente o álbum é um verdadeiro festim de referências, da assimilação de elementos da cultura jamaicana em “Ludi” ou da exploração contemporânea das derivações então ensaiadas entre o hip hop e a música house em “Face in The Basin” à celebração de heranças blaxplotation em “U Could Get Arrested”, passando por citações a formas exploradas pelo hip hop na alvorada dos oitentas, como no tema-título onde “samplam” Tom Tom Club ou Twelve Sided Dice (entre ecos da memória electro), isto sem esquecer “Wash Your Face In My Sink” que, tal como “My Definition of a Bombastic Jazz Style”, sugere uma luminosidade quase pop.

A impressionante diversidade de caminhos tomados ganha depois um sentido de corpo coeso pela abordagem vocal e liricamente consistente, apresentando King Lou (Louis Robinson) e Capital Q (Frank Allert) sob um invariável tom cool. Com uma história que recua a Toronto (Canadá), em 1988, os Dream Warriors circulavam com alguma visibilidade entre uma emergente cena local quando foram desfiados a assinar pela Island Records, através do selo 4th & Broadway, então particularmente atento às franjas que começavam a despertar interesses pelo jazz à volta do hip hop e novas expressões do vasto universo r&b. “Wash Your Face in My Sink”, “My Definition of a Boombastic Jazz Style” e “Ludi”, os três singles extraídos do álbum “And Now The Legacy Begins” resultaram em episódios de algum sucesso, colhendo o álbum boas opiniões na crítica. O mesmo cenário não se repetiu contudo com o segundo álbum, “Subliminal Situation” (1994), no qual a banda se mostrava então alargada a quatro elementos. A rota de erosão nas atenções foi acentuada em “The Masterplan” (1996), terceiro álbum que não conheceu então edição nos vizinhos EUA e no seguinte “The Legacy Continues”, que teve apenas expressão local, no Canadá e assinalou o ponto final no percurso criativo do grupo.

Mais de 30 anos depois, e mesmo que a memória da canção nascida sob o sample da orquestra de Quincy Jones seja ainda lembrada, “And Now The Legacy Begins” merecia ser mais vezes lembrado como um dos primeiros discos marcantes na construção de uma noção de hip hop alternativo a recuperar, agora que este universo já soma anos de vida suficientes para poder evocar feitos de outros tempos.

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