Depois de, durante meses a fio, ter acompanhado os elementos da banda em concertos, atuações em progranas de televisão e até mesmo em telediscos, Alan Wilder era finalmente integrado como parte dos Depeche Mode em 1983, assinalando-se a sua chegada com a edição, logo em janeiro, de “Get The Balance Right”, um single que representava mais um episódio no processo de gradual afastamento das coordenadas originais seguidas pelo grupo em 1981, isto numa altura em que Vince Clarke preparava um segundo álbum com os Yazoo (“You And Me Both”) que seria o derradeiro disco de estúdio da sua parceria com Alison Moyet). Tal como Os Yazoo o tinham feito poucas semanas antes com “The Other Side of Love”, também o novo single dos Depeche Mode, “Get The Balance Right”, seria um episódio de transição sem representação, depois, no alinhamento do álbum seguinte. E se a canção que dava título ao single aprofundava a clareza realista de um discurso mais político, já o lado B – “The Great Outdoors” – chamava atenção na assinatura da respetiva autoria. Tratando-se de uma colaboração na escrita entre Martin Gore e Alan Wilder este tema deixava claro que uma outra força criativa estava a nascer dentro do grupo e que, assim sendo, o futuro não seria apenas construído pelas visões daquele que fora chamado a ocupar o lugar de maior destaque na escrita originalmente assumido por Vince Clarke.

A entrada em cena de Alan Wilder juntou à sonoridade dos Depeche Mode um incansável experimentador e arranjador que, em conjunto com a escrita (maioritariamente assinada por Martin Gore) e as qualidades expostas em palco de Dave Gahan, permitiram redefinir um rumo que os levaria à criação de uma sucessão de álbuns que, em poucos anos, os elevaria do estatuto de promissora presença entre a primeira geração da pop eletrónica made in UK a um patamar de dimensão global. Mas antes de lá chegados mantiveram-se firmes num trilho que visou a demarcação de uma linguagem própria e que teve no álbum “Construction Time Again” um episódio de evidente afirmação.

Há um momento importante na definição da alma deste terceiro álbum: um concerto dos Einsturzende Neubaten no Instituto das Artes, em Londres. Martin Gore estava na plateia e assimilava ali a descoberta de novas demandas no som, nomeadamente a exploração de tonalidades industriais sobretudo acentuadas pela percussão de metais. Essa dimensão “operária” ganharia depois expressão num álbum politicamente mais intenso no qual as temáticas do trabalho (como é evidente, por exemplo, em “Pipeline”) e da ecologia (em “The Landscape is Changing”) vincam um posicionamento ideológico que contrasta com a pose essencialmente escapista então em voga entre muitos dos seus contemporâneos. A imagem usada na capa (e que rimava com as escolhidas gráficas depois levadas para os singles) vincava desde logo essa dimensão política, tomando o martelo como o símbolo de trabalho aqui chamado a uma iconografia pop.

Entre a percussão real de elementos metálicos – que chegaria inclusivamente a ganhar expressão em palco – e a definição de um corpo sonoro no qual o trabalho rítmico revela maiores cuidados do que outrora surgem elementos de uma arquitetura mais sólida pela qual as canções acolhem arranjos igualmente mais elaborados. Na verdade a evolução das qualidades musicais é aqui bem mais evidente do que a lírica, mostrando “The Landscape Is Changing” tanto sinais de ingenuidade como boas intenções, sendo no fim todo o edifício suportado por um magnífico trabalho no som que concilia aqui, como em vários outros momentos do disco, o melodismo pop com um novo discurso rítmico industrial e uma noção de ambiente e espaço à sua volta.

O álbum teve como cartão de visita o single “Everything Counts” que vincou desde logo a maior complexidade de elementos em jogo, juntando as vozes de Dave Gahan e Martin Gore num espaço comum, sugerindo um contraste que representa mesmo uma das qualidades maiores de uma canção que rapidamente se tornou num êxito e hoje é um clássico maior de toda a discografia do grupo e presença recorrente nos concertos da banda.

Como segundo single foi escolhido o mais anguloso “Love In Itself”, já editado nos formatos a 45 rotações depois do álbum e, por isso, um bom veículo para acentuar as visões industriais que o grupo aqui definia. Longe ainda do negrume que três anos depois emergiria em “Black Celebration”, este clima era, mesmo assim, coisa luminosa e ainda algo leve… pop.

Apenas para efeitos promocionais o tema Told You So”, claramente mais festivo, mas com marcas do som que atravessa todo o álbum, chegou a surgir numa edição promo em Espanha, acompanhando então a digressão local de 1984. O single, com a mesma canção dos dois lados – e com o título traduzido “Te Lo Dije Así” – é peça para colecionadores que pode alcançar preços já consideráveis.

Entre o alinhamento do disco vale a pena notar a presença de primeiros sinais de busca de inspiração em mergulhos entre caminhos mais pessoais por Martin Gore (que se revelam em temas como “And Then…” ou “Shame”) e mais uma contribuição da escrita de Alan Wilder em “Two Minute Warning”. Um epílogo, com um reprise de elementos de “Everything Counts”, sublinhava, a fechar o alinhamento, não apenas o design do álbum como uma peça mais concetual, como vincava o protagonismo do primeiro single, antecipando até os momentos de longa repetição das notas finais que depois fariam escola ao vivo, com contribuição das próprias plateias (como depois ficou fixado no álbum ao vivo “101”).

Depois de “Construction Time Again” chegou “Some Great Reward” (1984) que deu ao grupo sucessos considerávdeis sobretudo nos EUA e Alemanha. Depois, em 1986, “Black Celebration” afinava em definitivo uma linguagem nos sons, ao mesmo tempo que, finalmente, o grupo achava (com o fotógrafo Anton Corbijn) uma identidade sólida nas imagens. Não foi por isso uma surpresa quando, literalmente, com o álbum seguinte, editado em 1987, estivessem já a dar a escutar música para as massas…

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