Podem não ter somado os êxitos globais então vividos por figuras que lhes estavam mais próximas como os Frankie Goes To Hollywood ou ABC e só por breves períodos, estiveram perto dos patamares de atenções das estrelas maiores da pop daqueles tempos. Mas se há nome fundamental a citar quando se fala das visões musicais mais marcantes da história pop dos oitentas os The Art Of Noise estão na linha da frente das memórias a citar. Foram, mais do que uma banda no sentido mais convencional das vivências pop/rock, um laboratório de conceitos e de sons nascido das realidades tecnológicas e dos climas dos discursos de então.
A génese dos The Art of Noise ganhou forma entre a equipa de produção que Trevor Horn juntou na aurora da década, e com a qual trabalhou em discos dos ABC, Yes, Malcolm McLaren e Frankie Goes To Hollywood. Foi durante uma sessão de trabalho nas gravações do álbum “90125” que, trabalhando com um sampler Fairlight CMI (nova maquinaria, portanto), de um jogo de sons feitos entre samples e sequenciadores, surgiu o mote que os levou a “Owner of a Lonely Heart”, que em breve se transformaria num caso de sucesso para os Yes. Da vontade em continuar a explorar as potencialidades que tinham pela frente Trevor Horn desafiou o programador J. J. Jeczalik, o engenheiro de som Gary Langan e a arranjadora Anne Dudley a trabalhar novas ideias em conjunto, chamando a bordo o jornalista musical Paul Morley para definir conceitos e uma linguagem de comunicação (que seria depois uma das marcas de identidade da editora que o mesmo coletivo estava então a desenhar). Foi ele quem, inspirado pelas ideias de Luigi Russolo, trouxe o nome ao grupo. The Art of Noise assim se chamariam.
A estreia em disco fez-se em 1983 – abrindo o catálogo da ZTT Records – com o EP “Into Battle With The Art of Noise”, no qual emergiam já futuros clássicos como “Beat Box” e o minimalista “Moments In Love”, num conjunto de quadros que transcendia a lógica mais habitual em discos pop. Havia canções e não canções, peças longas e vinhetas, experiências sonoras, acontecimentos, sonoplastia… Ao mesmo tempo a capa do disco sugeria uma lógica de comunicação gráfica igualmente diferente, sublinhando a imagem do grupo outra marca de identidade distintiva, já que, ao invés das habituais fotografias o grupo optava por se mostrar com máscaras a tapar os rostos. Um ano depois do EP, o álbum “Who’s Afraid of The Art Of Noise?” Aprofundou os conceitos e sonoridades que tinham desenhado nesses primeiros ensaios, num alinhamento que recuperava “Beat Box” e “Moments In Love” e, entre novas peças, juntava “Close (To The Edit)” que representaria por aqueles dias o primeiro single de sucesso do grupo. Depois do lançamento de princípios sugerido pelo EP, o álbum colocava no mapa da cultura popular de então uma música de cunho experimental mas com alma claramente pop, acessível e contagiante, centrada sobretudo no labor das eletrónicas e das percussões, trabalhando a fundo as possibilidades lançadas pelas novas máquinas em estúdio, desenhando visões elaboradas, grandiosas, mas ao mesmo tempo capazes do mesmo poder de sedução de um doce pop para ouvir na rádio.

De um desentendimento com Trevor Horn resultou uma saída da ZTT Records logo após este episódio, numa altura em que “Who’s Afraid of The Art Of Noise?” se afirmara quase como um livro de estilo para ideias que logo depois ganharam forma em discos dos Frankie Goes to Hollywood, Propaganda, Anne Pigalle ou Grave Jones. Ligados à China Records, entre 1986 e 1988 gravam uma sucessão de discos que lhes dá visibilidade mainstream (entre os quais “Peter Gunn”, revistando memórias de um clássico de Duane Eddy ou “Kiss”, versão da canção de Prince com Tom Jones como vocalista). Ao mesmo tempo começaram a surgir uma série de opções menos imaginativas e, por alturas do álbum Below The Waste (1989) começaram a ficar afastados das atenções, mesmo daqueles que ainda pouco antes os tomavam como peça fulcral do mapa dos sons da época. Meteram baixa… Ou antes, o que parecia ser um ponto final. Até que retomaram a atividade em finais dos anos 90 com uma nova formação (onde entrava oficialmente como elemento o produtor Trevor Horn), dando-nos em “The Seduction of Claude Debussy” um dos seus melhores discos e, na verdade, o mais próximo de dar sequela à visão conceitual do álbum de estreia “Who’s Afraid of The Art Of Noise?”.





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