Entre dezembro de 1984 e o Natal de 1985 Midge Ure viveu um dos anos mais ativos e de maior reconhecimento de toda a sua vida como músico. Da co-autoria e gravação de “Do They Know It’s Christmas” do coletivo Band Aid ao concerto que levou à Wembley Arena a 23 de dezembro do ano seguinte, o ano viu-o a editar um primeiro álbum a solo e a obter, com o single “If I Was” o número um no Reino Unido que lhe escapara por um triz cinco anos antes com “Vienna” dos Ultravox, canção que não chegou ao topo da tabela de singles porque então ali estava “Shaddap You Face” de Joe Dolce… (se não se recordam, ótimo).  “The Gift”, esse álbum que então fixou os ecos de um ano feliz acaba de conhecer uma reedição que junta ao alinhamento original não apenas os temas extra que correspondem a lados B e remisturas dos singles “If I Was”, “That Certain Smile” e “Wastelands”, mas também os dois 45 rotações antes editados (“No Regrets”, de 1982 e “After a Fashion”, em parceria com o ex-Japan Mick Karn em 1983), assim como o que surgiu logo depois e claramente marcado pelo clima sonoro do álbum, “Call of The Wild”, acrescentando depois material de arquivo quer de estúdio (maquetes e temas em versões de trabalho) e captados ao vivo, quer em duas sessões da BBC (uma delas com Mick Karn) e o registo desse célebre concerto em Wembley a cujo alinhamento levou não apenas “Do They Know It’s Christmas” (estava-se a 23 de dezembro, vale a pena sublinhar) e duas memórias dos seus dias nos Visage (“Fade To Grey” e “The Dancer”), acompanhado por uma banda na qual, nos teclados, militava um então ainda desconhecido Craig Armstrong. 

Na verdade este foi um álbum que não nasceu com uma ideia de disco em mente. Com “Lament” dos Ultravox em tempo de vida, Midge Are estava então a montar um estúdio em sua própria casa (o mesmo onde lançaria as primeiras ideias de “Do They Know It’s Christmas”) e, com material novo, deu por si a experimentar o equipamento criando uma série de peças instrumentais. Ao mostrar o que tinha à editora foi confrontado com o que não imaginara: disseram-lhe que tinha ali um álbum. E logo tratou de chamar a colaboração de alguns músicos, recrutando o duo escocês Messengers que com ele começou a dar forma a essas primeiras ideias e a juntar algumas novas propostas. E uma delas surgiu de uma maquete deixada pelos seus colaboradores, sobre a qual o próprio Midge Ure refletiu, ajustando elementos até alcançar a forma final de “If I Was”, que seria escolhido como single de avanço.

Fruto do equipamento que tinha em estúdio, valorizando a presença dos sintetizadores mas, como era marca de identidade sua tanto nos Ultravox como nos Visage, de guitarra no ombro, “The Gift” traduz uma evidente afinidade com os rumos de uma música cenicamente complexa que os Ultravox tinham desenvolvido sobretudo depois de “Quartet”, o álbum de 1982 criado com George Martin como produtor. “Lament”, escrito, gravado e produzido pelos próprios Ultravox, reforçara essa dimensão, criando um patamar de alguma sumptuosidade nos cenários, espaço que Midge Ure continuou assim a explorar em “The Gift” e depois, mas com resultados menos marcantes, em “U-Vox” (1986), disco que encerraria o seu primeiro ciclo de relacionamento coma a banda cujo leme assumira depois da partida de John Foxx. Os instrumentais que estão na origem de todo o projeto (três deles acabaram mesmo por ficar no alinhamento do álbum) definem de facto o espaço em torno do qual ganha forma uma música que explora frequentemente os espaços para lá da voz como se nota tanto na canção-título como na própria sequência final de “That Certain Smile”. Apesar da dimensão art pop que caracterizara a obra dos Ultravox (ainda nos dias de Foxx), “The Gift” ousa mais ainda em procurar trilhos sem filtros, seguindo impulsos mais pessoais, que ensaiam ir para lá das linguagens da pop mainstream como se escutam em “Edo”, “Antilles” ou “The Chieftain” ou no apresentar de uma versão de “Living In The Past”, um original dos Jethro Tull. Os extras da nova edição acrescentam mais episódios que confirmam estes caminhos exploratórios quer em instrumentais sobretudo apresentados em lados B de singles ou manifestados nas maquetes que revelam os rumos que as canções tomavam antes das formas finais, abrindo aqui frestas sobre o processo criativo que as viu nascer. Oportunidade ótima para evocar um disco que traduz as demandas de uma música que não queria seguir atrás dos sabores do mês e que marcou muitas das discografias de nomes da pop dos oitentas marcados pelos ecos do punk e da new wave.

“The Gift” de Midge Ure está disponível em 2LP, numa caixa de 4CD e nas plataformas digitais numa edição da Chrysalis.

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