Com discretos primeiros passos dados em 1984 e 85, entre as versões originais (produzidas pela referência maior do hi-nrg, Bobby Orlando) de “West End Girls” e “One More Chance” e uma primeira tentativa, já no catálogo da EMI, de apresentação (sem impacte maior) com “Opportunities (Let’s Make Lots of Money)”, os Pet Shop Boys alcançaram, numa segunda vida do single de estreia, um cartão de visita com impacte global que abriu caminho a uma era feita de êxitos que, sobretudo entre 1986 e 1989, lhes deram uma mão-cheia de clássicos com impacte planetário. Entre canções como “Subúrbia”, “It’s A Sin”, “What Have I Done To Deserve This” (em dueto com Dusty Springfield), “Always On My Mind”, “Heart”, “Domino Dancing” ou “Left To My Own Devices” talharam aquilo a que o próprio Neil Tennant, que em tempos fora jornalista na revista “Smash Hits”, descreveu como a “fase imperial”. Mas tal como qualquer período de apogeu que a História já conheceu, chega um momento em que as coisas mudam… E com os Pet Shop Boys o elegante, mas mais discreto álbum “Behaviour” (1990), um dos criticamente mais aclamados da sua obra, revelou uma ligeira erosão nas atenções e nem mesmo uma canção perfeita como “Being Boring” (hoje justamente evocada como uma das maiores da obra do duo) alcançou sequer o Top Ten nos maiores territórios, algo que não acontecia com singles do grupo desde aqueles dias de arranque mais moderados. Se hoje os Pet Shop Boys vivem tranquilamente para além destas atmosferas definidas pelos efeitos das ações e reações às suas canções, na alvorada dos anos 90, com a memória ainda próxima da dimensão “imperial” de feitos muito recentes, a vontade em contrapor ao clima desenhado por “Behaviour” um novo disco mais pensado para devolver os ânimos à pista de dança marcou o caminho… E eis que entra em cena “Very”.

Editado a 27 de setembro de 1993, o sucessor de Behaviour desviou de facto o foco da atenção dos Pet Shop Bopys de novo para o espaço de relacionamento entre a pop e a música de dança onde decorrera parte significativa da sua criação até então. Mas mesmo sob esta rota de reencontro, o álbum não esquece todavia os ambientes mais melancólicos que haviam dominado o disco de 1990 e reparte o alinhamento entre instantes pop de alma mais efusiva e pequenos momentos de elegante placidez, como os que se escutam em “Dreaming of the Queen”, “To Speak is a Sin” ou “Liberation”, este último sendo inclusivamente escolhido para edição como quarto single extraído de “Very”. A alma do disco reside contudo nos episódios mais celebratórios, entre os quais “Can You Forgive Her?”, “I Wouldn’t Normally Do This Kind of Thing”, “Yesterday When I Mas Mad” ou uma versão de Go West, por aqueles dias um quase esquecido original dos Village People. No seu todo “Very” vincava um cuidado numa escrita atenta, observadora, sarcástica por vezes, capaz de comentar, que assim definia o tutano de uma música muitas vezes confundida como apenas banda sonora para devaneios festivos.

O disco foi editado num packaging invulgar, numa das edições em CD surgindo numa jewel box em relevo que sublinhou uma vez mais o bom relacionamento do duo com o trabalho de imagem. Uma outra edição juntou ao álbum um segundo disco com temas instrumentais (de título “Relentless”) que nunca conheceu, desde então, qualquer outro lançamento. A edição em vinil chegou valentes anos depois, usando imagens do inaly original como capa. Nota significativa ainda para os telediscos que acompanharam os cinco singles extraídos deste álbum, em todos eles notando-se uma vontade em usar as novas tecnologias ao serviço da animação digital e de efeitos visuais que então estavam na ordem do dia. 

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