São pouco mais de 500 páginas as que encontramos num novo volume que recolhe a obra poética de Caetano Veloso que, pela sua voz ou a de outros, foi ganhando forma em canções num percurso iniciado na década de 60 do século passado. Sob organização de Eucanãa Ferraz, o mesmo que há 20 anos organizara uma seleção tematicamente ordenada em “Letra Só”, o novo livro, lançado no Brasil no 2022 em que Caetano Veloso chegou aos 80 anos, e que agora conhece edição portuguesa, “Letras” propõe algo diferente e mais amplo face a esse outro volume: trata-se de uma integral que junta, cronologicamente ordenadas (das mais recentes para as mais antigas), as letras que Caetano escreveu para as suas canções e para as que deu a outros para cantar. Disco após disco, atravessando os tempos dos mais recentes aos que comportam cada vez mais antigas memórias, as palavras ganham o peso de um arco que atravessa toda uma vida, devendo-se muito ao entusiasmo com que Caetano enfrentou a criação do mais recente “Meu Côco” (2021) o sentido de acutilante contemporaneidade que o livro assim também traduz. Os tempos de Caetano passam (até aqui) todos eles por estas páginas.
É o próprio Eucanãa Ferraz quem nos conta, num texto que antecede a própria antologia poética, que “a distribuição ordenada dos versos na página nem sempre coincide inteiramente com o canto”, referindo-se em concerto a marcas que a interpretação, o canto, necessariamente acrescentam. Mas impressas, explica, “as palavras reivindicam uma atenção nova” e, “ainda que as melodias soem na memória, vem aos olhos a materialidade dos versos, das estrofes, dos procedimentos formais”. A este plano nas formas juntam-se os dos significados. E aí encontramos no percurso que fazemos em “Letras” um olhar panorâmico sobre uma obra que acompanha, atenta, a história política, social e cultural do Brasil desde meados dos sessentas, traduz ecos de vivências que transcendem as fronteiras do país e, claro, uma profunda relação com a língua portuguesa. E, no fim, o autor pela reunião (e tratamento) de todas estas letras admite: “Talvez sejam as imagens o que mais fortemente nos fascina” já que, como depois descreve, “podem fazer a crónica da vida social e política brasileira, podem ser assumidamente autobiográficas, podem soar oníricas e absurdas, podem instalar a reflexão mais densa, a melancolia, a repulsa e a tristeza mais dolorosa; podem fazer a festa, a dança e trazer-nos à boca o erotismo solar dos carnavais”. O mundo, como conclui “nunca será igual” depois de ouvirmos a obra de Caetano. E aqui podemos caminhar pelas canções de outras maneiras. E, depois das páginas, a elas regressar com som.
Além das letras, da introdução de Eucanãa Ferraz e de um texto de abertura do próprio Caetano Veloso, o livro inclui uma detalhada discografia do músico, uma listagem completa dos créditos das canções e ainda uma bibliografia que convida depois a mais leituras…





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