Entre as bandas que, na passagem dos anos 70 para os 80, fizeram a linha da frente da primeira geração de criadores de canções pop dominadas pelas emergentes ferramentas eletrónicas, os Soft Cell representaram um dos casos mais invulgares e cativantes. O sucesso inesperado que alcançaram com o single “Tainted Love”, em 1981, catapultou-os, algo inesperadamente, para um patamar de celebridade mainstream com o qual eles mesmos tiveram dificuldade em lidar, acabando depois a banda por sabotar e desmontar o estatuto conquistado, colocando na história da canção pop os nomes de Marc Almond e Dave Ball, juntos desde um encontro ocasional, em 1978, quando ambos eram colegas numa escola de artes em Leeds.
Marc Almond crescera a escutar os heróis pop/rock da sua geração, com Bowie entre as suas referências mais marcantes. Dave Ball, que tinha um particular fascínio pela música criada para o cinema – sobretudo o corpo de bandas sonoras de perfil épico da série James Bond – conheceu aquela epifania que abre novos horizontes e aponta um futuro no momento em que, pela primeira vez, escutou “Autobahn” dos Kraftwerk. Juntos, ainda como estudantes universitários, começaram a criar canções e a apresentar performances. A princípio nem se imaginavam uma banda, já que, salvo os Suicide, não havia (ainda) exemplos de duos para voz e eletrónicas… Mas entre performances (algo subversivas) e primeiras canções foram definindo um caminho bem distante de apetites mais acessíveis no EP lançado via auto-edição “Mutant Moments” (1980) que, ao ser levado para o outro lado do Atlântico por um DJ e tocado em discotecas de Nova Iorque, lhes valeu um acordo “ou vai ou racha” com uma editora maior tendo desde logo como mentor o celebre Stevo, que então criara a etiqueta Some Bizarre. O primeiro single nascido desse acordo (que previa a distribuição através da Phonogram), chamou-se “Memorabillia” e, apesar de ter gerado algum entusiasmo nas pistas de dança mais dadas a ir além dos sabores populares do momento, passou longe das atenções. Perante os resultados, uma segunda “chance” foi-lhes concedida… Falaram então numa versão. E, para os sets ao vivo tinham já passado por um debate entre duas candidatas… “The Night” de Frankie Valli and The Four Seasons (que entretanto fora gravada por Lene Lovich) ou uma peça quase esquecida da northern soul britânica… Um velho single interpretado por Gloria Jones (em tempos a companheira de Marc Bolan) e editado em 1965. Chamava-se “Tainted Love”…

O duo explorou ali as potencialidades das novas eletrónicas mas também um sentido quase minimalista na definição dos ambientes, contando com a colaboração em estúdio de Mike Thorne, produtor que recentemente havia trabalhado em discos dos Wire, The Shirts ou Berlin Blondes. O sucesso, que não foi imediato, mas sem dúvida inesperado (de tão gigante e global), fez dos Soft Cell um fenómeno de popularidade numa altura em que a banda trabalhava a criação de um álbum que, , já ciente do impacte de “Tainted Love”, seguia musicalmente os mesmos caminhos dos dois recentes singles na forma, mas sem prescindir das temáticas frequentemente focadas em olhares sobre o quotidiano e de cenas de lados menos expostos da vida noturna (algo que a contracapa fotografada numa rua do Soho desde logo evidenciava) que definiam já o corpo de canções que apresentavam ao vivo. Marc Almond focava então atenções na escrita das letras (que explicou serem sobretudo marcadas pelo cinema que então via), deixando para Dave Ball e Mike Thorne a moldagem dos sons, esperando que estes não tirassem ao som de estúdio a alma minimalista que apresentavam ao vivo (hoje confessa que ficou satisfeito com o resultado, claro).
Entre canções como “Bedsitter”, “Youth”, “Frustration”, “Sex Dwarf” ou “Seedy Films” celebravam-se histórias da noite, dos anónimos que são os seus protagonistas, de vidas difíceis, de sexo, juventude, isolamento, frustração e desejo. Num contraste com um tom mais festivo e luminoso das canções de outros contemporâneos, “Non Stop Erotic Cabaret” levava uma nova canção pop feita com electrónicas à galeria dos grandes discos que fixam retratos de uma sociedade e de um tempo. Esta carga realista não impediu o grupo de explorar uma relação com a pista de dança que já vinha de “Memorabillia” (tema não incluído no alinhamemnto) e que se expressa não apenas no então já célebre “Tainted Love” (que na versão original foi gravado em continuidade com uma versão de “Where Did Out Love Go” das Supremes), mas também em episódios festivos como “Chips on My Shoulder” ou “Entertain Me”. Ao mesmo tempo o álbum abre um espaço que seria marcante na vida futura de Marc Almond (tanto nos Soft Cell como a solo): a encerrar o alinhamento, com perfil grandioso, “Say Hello Wave Goodbye” revelava um primeiro passo nos trilhos da torch song.
Agora, 42 anos depois, o álbum conhece uma nova edição especial, esta mais carregada em detalhes e novo material face a outras já lançadas em 1996 e 2008. Deixando de lado o disco-companheiro “Non Stop Ecstatic Dancing” (incluído como extra na edição especial de 2008), a nova edição apresenta o álbum numa caixa que, através de 6CD, propõe um olhar sobre o álbum, o seu tempo e o seu legado. O CD1 recupera o álbum e junta os singles e lados B do seu tempo (ou seja, “Memorabilia”, “Tainted Love”, “Say Hello Wave Goodbye”, “Bedsitter”, “Torch” e “What”. Logo a seguir o CD2 propõe versões longas criadas recentemente (pelo próprio Dave Ball) para muitas das canções desta etapa, seguindo essencialmente as formas sonoras dos originais salvo em leituras mais pessoais, criadas já em 2023, uma por Daniel Miller (o “patrão” da Mute Records) e outra por Tim Hacker do clássico “Memorabillia”. O CD3 revela uma coleção de gravações de arquivo que regressam aos dias do EP de estreia “Mutant Moments” e que inclui depois várias gravações de atuações da época na rádio e televisão, juntando depois algumas remisturas recentes. O CD4 sugere uma curiosidade: versões instrumentais de todas as faixas do álbum de 1981 e de muitos dos singles e lados B desta fase. No CD5 há uma recolha das versões longas dos máxis (lados a e b) originais. E, a fechar, o CD inclui uma apresentação ao vivo do álbum, de fio a pavio, gravada em 2021 e excertos de um outro concerto, na O2 Arena, em 2018.

Ao invés do que costuma acontecer neste tipo de edições comemorativas, esta caixa inclui dois CD cheios de material recente: o CD2 e o CD6, ou seja, as novas remisturas (que pouco acrescentam, convenhamos) e gravações ao vivo mais próximas do presente do que da época que se evoca. Há bom arquivo de rádio e TV (CD 3). Há um mimo, mas apenas curioso, nos instrumentais (CD4). E, depois, entre os CD1 e CD5, surgem os originais já editados e reeditados em diversas ocasiões… Ou seja, na verdade não há por aí além grandes novidades de arquivo que justifiquem um reencontro deste calibre. Gravações ao vivo da época? Maquetes? Takes alternativos que permitam “espreitar” o processo criativo? Uma entrevista com Almond e Ball? Um Blu-Ray com telediscos, atuações na TV? Um documentário? Liner notes mais detalhadas (que tal um canção a canção como habitualmente o fazem os Pet Shop Boys) no livrinho de capa dura que acompanha esta caixa que tem as dimensões de um dez polegadas… Ou seja, podia haver mais motivos para, de forma mais nutritiva, sermos levados a um reencontro com um dos mais importantes álbuns pop da alvorada dos oitentas. O que aqui se escuta é bom, claro… Mas o naipe de extras e, sobretudo, de inéditos, podia ser melhor.
Soft Cell “Non Stop Erotic Cabaret” está disponível em novas edições especiais de 2LP vou 6CD, num lançamento da Mercury.





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