O álbum e o filme apresentados em 1990 sob o título comum “Graffitti Bridge” foram mais espaço de reunião de todo um conjunto de heranças do universo de Prince nos oitentas do que, propriamente, uma porta que indiciasse os caminhos a seguir nos anos 90, que então davam os primeiros passos. De resto, o relativo insucesso do filme e uma série de contratempos no universo de bastidores em volta de Prince fizeram com que o passo seguinte levasse mais alguns meses a ver a luz do dia do que o inicialmente previsto. Na linha do horizonte estava então o primeiro álbum de um novo acordo com a editora e, apesar de algumas opções menos certeiras nos últimos tempos e uma falta de êxitos como acontecera com regularidade e dimensão invulgares entre 1982 e 1988, os argumentos que o músico apresentou em sua defesa, da vontade em continuar a criar êxitos ao desejo em encarar o vídeo com outro cuidado e protagonismo, valeram-lhe um despertar de renovadas expectativas. E convenhamos que o álbum que se seguiu a esta ronda de negociações deixou, no fim, todos satisfeitos.
Ao contrário do que acontecera nos últimos discos, o álbum no qual Prince começou a trabalhar após a Nude Tour (que foi das de que mais gostou) representou o seu momento de regresso ao estúdio com uma banda. Com uma formação que seria afinada num processo que levou meses a moldar, o grupo – que se apresentou como New Power Generation, expressão inicialmente usada numa das canções de “Lovessexy” e que dera título numa canção de “Grafite Bridge” – era consideravelmente diferente dos Revolution, talvez menos dada aos caminhos inesperados da experiência, mas decididamente sólida e capaz de suportar o cunho versátil da música em jogo que, apesar de aberta a vários horizontes, mostrava uma vontade em focar diversas escolas negras, do funk e dos universos da soul ao hip hop.
“Diamonds and Pearls” devolveu Prince a um patamar de sucesso maior, mas revelou um trabalho de polimento em estúdio com um cuidado perfecionista que era, mesmo assim, diferente do que brotava do espírito mais imaginativo que havia habitado os discos criados com os Revolution. Álbum duplo na versão em vinil mas, tal como o anterior “Grafitti Bridge”, com o alinhamento concentrado em apenas um CD, “Diamonds and Pearls” teve nos singles de avanço “Get Off” (canção criada perante a notada falta de um momento destinada às rádios dedicadas à música negra) e “Cream” (desenvolvida a partir de heranças diretas de “Girls and Boys”) duas propostas radicalmente distintas, mas ambas capazes de cativar os públicos de Prince. O primeiro respirava um viço funk e dava ao hip hop um protagonismo até ali inédito na obra de Prince. O segundo devolvia-o a um relacionamento gourmet com a forma da canção pop. Ambos tinham em comum telediscos de produção exigente, o mesmo sucedendo com a canção-tema do álbum, que seria o terceiro single internacional, fazendo de mais uma balada um sucesso global. Para alguns mercados pontuais foram ainda extraídos como single os temas “Insatiable”, “Money Don’t Matter 2 Night” e “Thunder”.

“Diamonds and Pearls” regressa numa edição deluxe criada nos moldes que nos deram já olhares alargados sobre discos como “1999” (de 1982) ou “Sign O’The Times” (1987). Com 12 LP na versão em vinil e sete discos na caixa em CD, esta edição especial envolve, além do álbum original e de uma coleção de lados B e remisturas dos singles e máxis lançados na época, um conjunto de gravações inéditas até aqui guardadas no arquivo ao qual Prince chamava “The Vault”. Ali encontramos canções que alargam o espectro das sessões de trabalho desta época para além dos caminhos sobretudo focados nos diálogos entre a pop, o funk, o swing beat e o hip hop que o alinhamento do álbum destacaria e que aqui passa por canções como “Open Book”, “a balada “Hold Me”, “Don’t Say U Love Me” ou “Trouble”, todas elas a mostrar como Prince soube de facto levar ao alinhamento final do álbum o melhor desta colheita. Mais distantes da linha que define o mood do álbum encontramos aqui canções como “Lauiriann”, que reflete ecos do clima pop/rock dos tempos dos Revolution, “Standing At The Alter”, que pisca o olho a uma luminosidade pop ou “Spirit”, que ensaia batidas com pulsação eletrónica, marca que cruzava sobretudo as rotas de Prince nos tempos de “1999” ou “Purple Rain”. Como curiosidade, o take de “Darkside” aqui incluído mostra a voz de Prince a dar instruções aos músicos antes da gravação. Ao invés do que sucedeu nos inéditos apresentados nas edições especiais de “1999” ou “Sign O’The Times”, entre o material aqui apresentado não há tesouros maiores, ou seja, em nenhum momento surge aquela sensação de “pena que isto não tenha ficado no álbum…” Há contudo episódios historicamente interessantes, seja na improvisação a que Prince chamou “Letter 4 Miles” que gravou dois dias após a morte de Miles Davis, que muito admirava, ou algumas maquetes criadas para as vozes de Martika (entre as quais as acima citadas “Open Book”, “Spirit” e “Don’t Say U Love Me”, estas duas últimas tendo surgido depois no álbum “Martika’s Kitchen”) ou Rosie Ganes, que então integrava a New Power Generation.
Além deste volume de inéditos, a edição especial de “Dimonds and Pearls” inclui ainda a gravação em áudio e vídeo de uma atuação ao vivo no Glam Slam em 1992 e junta ainda, no Blu-Ray que acompanha os discos, a atuação de Prince nos Jogos Paralímpicos em 1991 e a coleção de telediscos criada para as canções deste álbum. O livro que a caixa contém inclui além de inúmeras fotos de sessões desta época e de páginas com letras, uma série de textos e entrevistas que ajudam a contar a história de um álbum que deu a Prince o seu episódio mais feliz nos anos 90. Mal imaginavam músico e editora que, pela frente, havia tormentas (mas também boa música).
“Diamonds and Pearls – Special Edition”, de Prince & The New Power Generation, está disponível em 12LP + Blu-Ray ou 7CD + Blu Ray e ainda nas plataformas digitais, numa edição da Warner.





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