Tudo começou num restaurante, em meados dos anos 70. Annie Lennox, que tinha já por essa altura três anos de estudos dedicados à flauta e ao cravo na Royal Academy of Music, em Londres, tinha tocado nos Dragon’s Playground e passado por um concurso de talentos na televisão, trabalhava num restaurante quando Dave Stewart, que ali passou numa ocasião, lhe foi apresentado por um amigo comum. Do primeiro encontro à formação de uma primeira banda foi um pulo, entrando os The Catch em cena em plena revolução punk, estreando-se com o single “Borderline” em 1977. Mudam de nome (e formação) para The Tourists, com quem editam três álbuns entre 1978 e 1980, inscrevendo ali importantes episódios da história da new wave britânica. O fim dos Tourists e da própria ligação amorosa entre os dois não os separou, entrando então em cena os Eurythmics, uma banda na qual chegaram aos anos 80 com vontade em criar visões pop capazes de desafiar as sonoridades mais tradicionais do género, usando os emergentes sintetizadores como importante contribuição para a criação de canções que tinham, contudo, na voz de Annie Lennox, a sua principal força identitária.
O álbum de estreia “In The Garden” (1981) passou algo longe das atenções, mas definiu espaços de ensaio de ideias, que mostravam uma rara capacidade em aliar um gosto exploratório nos sons e cenografias ao desenho de canções pop que em nada procuravam correr atrás do piscar de olho aos sabores do mainstream.
Gravado em 1982, lançado em janeiro de 1983, um segundo álbum aprofundou o trabalho com as eletrónicas, vincando o labor cénico das canções, desta vez rumo a atmosferas mais sombrias. Os dois primeiros singles extraídos deste disco, lançados em 1982 – “This Is The House” e “The Walk” – não causaram impacte maior, tendo o terceiro (ainda editado nesse mesmo ano) sugerido frestas de luz ao som de “Love Is a Stranger”. Ninguém imaginaria então que, ao tema título do álbum, “Sweet Dreams (Are Made of This)” estava guardado outro fado, catapultando os Eurythmics para um patamar de popularidade e reconhecimento que mantiveram bem alto daí em diante, reforçado logo depois por uma reedição de “Love Is a Stranger” em cujo teledisco se acentuava uma característica que teria importância decisiva na afirmação da iconografia associada à banda: a ambiguidade, fazendo de Annie Lennox uma das figuras mais importantes na história dos desafios lançados pela cultura pop à história das representações da identidade de género.

É sob o impacte tremendo de “Sweet Dreams (Are Made of This)” (single e álbum) que partem rumo à criação do episódio seguinte, “Touch”, que nasce numa rota de continuidade, acrescentando contudo ao som uma nova aventura: o apelo grandioso de arranjos para cordas, assinados por Michael Kamen e que envolveram então a colaboração da British Philharmonic Orchestra.
“Who’s That Girl” (cujo teledisco juntou mais um episódio a uma narrativa visual que evidenciava a androginia da figura da vocalista) e “Here Comes The Rain Again”, os dois primeiros singles extraídos de “Touch” são exemplos claros deste encontro entre uma postura cénica tensa e fria desenhada pelo protagonismo dos sintetizadores, a voz contrastante e marcante de Annie Lennox e a imponência da presença da orquestra.
O álbum, contudo, guarda muito mais do que estes episódios que fizeram história, revelando o alinhamento o mesmo tom exploratório que caracteriza a música dos Eurythmics desde “In The Garden”, guardando em canções como “Regrets”, “Cool Blue”, “The First Cut”, “Aqua” ou “No Fear, No Hate, No Pain (No Broken Hearts)” uma sucessão de ideias bem distantes do apelo pop imediato que podemos associar a uma carreira de sucesso nas tabelas de vendas, traduzindo o hipnótico “Paint a Rumor” (com mais de sete minutos) uma sugestão do interesse dos Eurythmics pela exploração das mecânicas da música de dança que pouco depois investigariam com mais detalhe no álbum-companheiro “Touch Dance”, editado já em 1984. Vale a pena notar ainda o momento de contraste que o álbum sugere em “Right By Your Side”, com exuberante arranjo para metais e mood caribenho festivo que acabou escolhido como terceiro (e derradeiro) single.
O álbum ultrapassou as vendas e popularidade do disco anterior, abrindo aos Eurythmics a porta a uma decisiva implantação global. Quarenta anos depois podemos recordá-lo não só como o ponto final da etapa dominada pelos sintetizadores na obra dos Eurythmics mas também como, mais ainda que o outro disco de 1983, o seu melhor momento.





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