O sucesso conquistado globalmente pelo impacte do álbum “Rio”, em 1982, teve várias consequências práticas no quotidiano dos Duran Duran e uma delas decorreu diretamente de uma necessidade em viver e trabalhar fora de Inglaterra durante um ano para assim tentar contornar a carga de impostos a que outro modo estariam sujeitos no Reino Unido. Tax exiles, dizia-se então, e não eram de todo o primeiro nem seriam o último caso a passar por este estatuto. Ou seja, nada de novo na história da cultura pop/rock. Foi por isso que, em inícios de 1983, e já depois de Nick Rhodes se ter juntando em estúdio a Colin Thurston para produzir o álbum de estreia dos Kajagoogoo, deram por si a gravar novas maquetes numa vivenda perto de Cannes, desta vez sob a produção de Ian Little. Desta etapa há sobretudo memórias de más rotinas de trabalho e de mais tempo passado em distrações do que à volta da música. Entre as maquetes gravadas surgia uma revelando a canção “Seven and The Ragged Tiger” e outras que, até hoje, não conheceram a luz do dia. Como as demais canções nascidas nessas sessões não chegaria ao novo álbum, mas dela evoluiriam elementos que se materializariam depois em “The Seventh Stranger”. O tema original daria mesmo assim, mais tarde, título ao novo disco. Com alma do que poderia ser o título de um filme de ação, juntava a ideia de uma equipa de sete elementos (ou seja, os cinco membros do grupo mais os dois managers, os irmãos Berrow, donos do Rum Runner, em Birmingham, onde a aventura havia começado cinco anos antes), representando o “tigre esfarrapado” uma metáfora do sucesso.

O trabalho no disco foi interrompido por compromissos em Londres – entre eles eventos contando com a presença dos príncipes de Gales – e retomado pouco depois nos Air Studios em Monserrat, nas Caraíbas, onde ao grupo e a Ian Litte se juntou o produtor Alex Sadkin. O ritmo de trabalho caminhou uma vez mais aquém do desejado, obrigando a uma outra temporada de sessões, não apenas nesses mesmos estúdios mas, mais tarde em Sidney (Austrália), durante as quais o moroso processo de mistura chegou a gerar um conflito entre Sadkin e o baixista John Taylor.

É também na Austrália, onde semanas depois iria começar a Sing Blue Silver Tour, que tiram a fotografia que surgiria depois na capa do álbum e gravam (perto de Sydney) o teledisco para “Union of The Snake”, escolhido como single de apresentação e lançado em outubro de 1983 com resultados sólidos, embora um nada aquém do que eventualmente seria esperado depois do impacte global de “Rio” e a boa carreira de “Is There Something I Should Know?”, single editado entre os dois álbuns, que vincara o estatuto internacional da banda na primavera de 1983.

O longo processo de escrita, gravação e mistura teve contudo resultados visíveis num álbum que não repetiu a pop mais luminosa e dançável de “Rio”, procurando antes novas demandas cenicamente mais complexas, não perdendo contudo as canções o seu sentido pop e, sobretudo, a capacidade em talhar refrões memoráveis que desde sempre se afirmou como uma das marcas de identidade dos Duran Duran. As letras eram contudo mais abstratas do que nunca, promovendo o trabalho muito elaborado de teclas e uma produção atenta ao detalhe a construção de um monumento que só o contexto da época e a popularidade global de que então o grupo gozava podia transformar num caso de sucesso com semelhante dimensão. Era, por outras palavras, um disco “difícil”. Mas o momento mostrava-se favorável aos Duran Duran e a comunicação fluiu.

“Seven and The Ragged Tiger” daria ao grupo o seu único álbum a chegar ao número um no Reino Unido, somando depois uma dupla platina nos EUA e uma tripla platina no Canadá. Ao sucesso dos singles “Union of The Snake” e “New Moon on Monday” (este com resultados mais discretos) juntar-se-ia, já em 1984, o impacte global de uma remistura de Nile Rodgers para “The Reflex”, que então lhes deu o seu maior êxito até então, traduzindo sobretudo nos EUA o efeito da digressão que andou por grandes salas de todo o território até finais de abril desse ano.

Sovado pela crítica da época, talvez mais como eco do estatuto “famoso” alcançado pelos membros da banda, o álbum traduz um dos paradigmas de uma pop de arquitetura e arte final complexa que espelha efeitos das conquistas tecnológicas mais recentes no plano instrumental e na diversidade de possibilidades do trabalho em estúdio, se o orçamento fosse de feição (e era).

Contendo em “The Reflex” e “New Moon on Monday” dois dos melhores singles da banda, aos quais se juntariam pequenas pérolas de pop sofisticada em “Shadows on Your Side”, “I Take The Dice” ou “(I’m Looking For) Cracks In The Pavement” outros exemplos da nova linguagem pop mais detalhadamente cenografada aqui fixada, o álbum foi também fonte direta para algumas etapas posteriores da vida destes músicos. O carácter textural, centrado no trabalho das teclas, em “Tiger Tiger” e “The Seventh Stranger”, seria a porta evidente para o projeto parelelo Arcadia (Simon Le Bon, Nick Rhodes, Roger Taylor), tal como o fulgor mais rock de “Of Crime and Passion” não estava longe de alguns caminhos a aprofundar pelos Power Station (que juntaria Andy Taylor e John Taylor a Robert Palmer e Tony Thompson). Já alma de travo white funk de “Union of The Snake” lançaria uma ponte que, três anos depois, seria retomada e levada a mais consequentes destinos em “Notorious” e, longos anos depois, em “Pressure Off”. E tudo isto em apenas nove faixas.

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