O que à partida começa por parecer um projeto de sonho afinal tornar-se num pesadelo. E esta é talvez a maior das revelações de uma caixa que, entre 6 CD e um DVD nos conta, em detalhe, a história da criação de um álbum que fora destinado a desenhar uma ideia de paradigma maior capaz de representar a essência da identidade de Marc Almond mas que, na verdade, revelou ser um projeto que o deixou mais de fora do que no centro das operações, acabando o alinhamento por traduzir mais a visão e a personalidade (forte) do produtor e não os sonhos que o autor e cantor na verdade imaginara para o seu primeiro disco numa nova grande editora. Depois de três álbuns (e uma mão-cheia de singles e EP) a bordo da Virgin e de dois outros discos na EMI, as primeiras etapas do percurso a solo de Almond depois do fim (que não seria definitivo) dos Soft Cell, tinham já acrescentado momentos notáveis a uma obra que, ainda nos dias ao lado de Dave Ball, já denunciara um gosto peculiar pela torce song, as sugestões mais teatrais (não é coisa negativa, sublinhe-se) de drama e um quadro temático sobretudo focado em cenários noturnos, urbanos, falando de desejos, de solidão, de sonhos, ilusões e de identidades, caminhando muitas vezes entre as faces menos vezes retratadas das vidas que despertam quando muitas outras dão o dia por concluído.
Era este o quadro onde naturalmente Marc Almond ia continuar, num trajeto em disco que, por aqueles dias, acabara de mergulhar do cancioneiro de Jacques Brel (ao qual tinha já ido colher uma canção quando gravou discos com os Mambas), editando, por uma pequena independente o álbum de versões “Jaques” (que lhe valeu rasgados elogios pela viúva do cantautor belga). Sob linhas ditadas pela visão de um dos responsáveis da Warner, como explica o texto que acompanha a nova edição de “Tennement Symphony”, Marc Almond tinha pela frente um encontro com um dos mais aclamados produtores do seu tempo, que nos últimos anos tinha marcado a sua precença em discos dos ABC, Malcolm McLaren, Art of Noise, Frankie Goes to Hollywood ou Grace Jones. Seria um disco pop, com dimensão épica, sinfonista, polido nas formas e talhado para a voz única de Marc Almond. Não terá sido esta ideia a que eventualmente tenha contrariado os sonhos de Almond. Na verdade o músico levou uma nova coleção de canções a estúdio, entre as quais estavam momentos de reencontro com o velho parceiro dos tempos dos Soft Cell. A bordo chegou também mais uma canção de Brel (“Jacky”) e uma de David MacWilliams (“The Days Of Pearly Spencer”), escolhas que curiosamente seriam os singles de maior sucesso depois de extraídos deste álbum… Mas ao mesmo tempo Trevor Horn trouxe não só a sua maneira muito pessoal de trabalhar e também uma canção criada em parceria com Bruce Wolley, o mesmo com quem tinha composto “Video Killed The Radio Star” dos seus Buggles ou “Slave To The Rhythm” de Grace Jones.

O ambiente em estúdio ficou longe de ser coisa idílica, descreve agora Marc Almond que chega mesmo a afirmar no texto do inala que Trevor Horn teria como modelo de trabalho ideal um estúdio no qual ele mesmo ficasse sozinho. Marc Almond esteve por isso presente nas sessões em que a sua presença era fulcral, e acabou por ver algumas das canções que trouxera para o álbum a ficar fora do alinhamento desenhado pelo produtor, acabando temas como “Money For Love”, “Deadly Serenade” ou “Night and No Morning”, entre outras mais, relegadas para uma vida mais discreta no lado B de singles. Em contrapartida, com o leme nas mãos, Trevor Horn deu forma a um disco que, se na capa, sugeria um protagonismo de Marc Almond, na verdade era um monumento no qual a sua presença criativa foi igualmente determinante.
Mesmo sabendo agora do desconforto de Almond, a verdade é que não deixei de encarar este como sendo um dos seus melhores discos a solo, capaz de traduzir uma síntese do que fora a afirmação de uma personalidade única (e rara) no panorama da canção pop dos oitentas, de certa forma representando, juntamente com o registo ao vivo “12 Years of Tears” (onde Almond fez as pazes com as memórias dos Soft Cell), um fim de ciclo. E nesse sentido, e apesar de todo o quadro conflituoso que habitou a criação da “Tenement Symphony”, este é mesmo um momento de brilho maior, correspondendo na verdade ao último título da sua obra com impacte maior no panorama mainstream (sobretudo graças aos singles que gerou).
Com um título que desde logo traduz uma linha de continuidade com a mesma voz que em tempos cantava “Bedsitter” (afinal esta é uma sinfonia pop sobre um prédio residencial), “Tenement Symphony” surge nesta nova edição com um alinhamento que chegou a ser previsto mas afinal não concretizado na edição original, em 1991. A “sinfonia” pop, contando, depois de um prelúdio, com “Jacky”, “What Is Love”, uma citação das “Trois Chansons de Bilitis” de Debussy, “The Days Of Pearly Spencer” e “My Hand Over My Heart” (uma das parcerias com Dave Ball e, segundo álbum, um dos melhores momentos do álbum), abre agora o alinhamento, segundo-se depois um outro lote de canções entre as quais estão os magníficos “Vaudeville and Brulesque”, “Meet Me In My Dream” ou “Champagne”, todas elas levadas depois ao alinhamento do concerto de celebração dos 12 anos de lágrimas, no Royal Abert Hall, a 30 de setembro de 1992 (e nesse dia eu mesmo estava lá). O desencantamento de Marc Almond não retirou a “Tenement Symphony” o brilho de um álbum pop talhado à ideia do que, até então fora a expressão da sua identidade. Ao escutar os discos seguintes podemos compreender que o seu rumo estava já apontado a outros caminhos. Caminhos de certa forma sugeridos nesta caixa na qual se nota, sobretudo nas gravações ao vivo de canções desta etapa, o interesse em afastar-se da pompa e circunstância, rumando antes a uma mais frágil e desnudada relação com, sobretudo, o piano. De resto, a série de gravações que encontramos nos 6 CD desta edição não só devolvem a uma maior visibilidade as canções de Almond preteridas por Trevor Horn, assim como várias captações ao vivo (em salas de concerto e na rádio), assim como versões de trabalho anteriores às sessões com o produtor. Estão ainda aqui vastas coleções de remisturas, das que surgiram entre singles e máxis de então a outras que ficaram na gaveta, entre as quais uma que poderia ter correspondido a um quarto single (“What Is Love”, a tal composição de Horn e Wooley), que Almond não autorizou. Por sua vez o DVD junta os três telediscos e atuações (pouco entusiasmastes) na televisão… No fim, faz-se justiça a um grande álbum, ora ao recordar o que foi ora na reposição de peças que acabaram longe do inicialmente pretendido pelo autor. Mas, de uma maneira ou de outra, celebra-se um momento maior na discografia de Marc Almond. E justifica-se, uma vez mais, o porquê da utilidade deste tipo de edições de arquivo.
“Tenement Symphony” (Deluxe Edition), de Marc Almond, está disponível numa caixa com 6CD e um DVD, num lançamento da SFE/Cherry Red. Há também uma edição 2CD + DVD, uma reedição em vinil. E ainda uma edição para plataformas de streaming, esta sem os conteúdos em vídeo.





Deixe um comentário