Continuamos a viagem pelos títulos mais marcantes que nos chegaram ao longo de 2023. As escolhas hoje publicadas escutam as edições de livros (sobre música), os novos filmes (independentemente dos circuitos de distribuição) e ainda séries e especiais de televisão.
À dose focada na música junto ainda dez outros filmes e dez outras séries que destaco entre o que vi ao longo deste ano.
Cada lista é apresentada por ordem alfabética, pelo que destaco apenas o “melhor do ano” em cada uma delas.
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LIVROS
“Primavera nos Dentes”, de Miguel de Almeida

Juntamente com uma proposta decididamente desafiante no som, sugerindo novas possibilidades para linguagens rock, a imagem andrógina do grupo (em sintonia com o que então acontecia em terreno glam rock), fez de “Secos & Molhados”, editado em 1973, um statement artístico ousado e único que, à partida, poderia ter tudo para cativar melómanos atentos e espíritos orientados pelas vanguardas do pensamento e comportamentos. Todavia, e apesar do tempo político e social que então se viva num Brasil sob a presidência de Emílio Médici (o terceiro chefe de estado do período da ditadura militar), o álbum gerou um fenómeno de sucesso fulminante. Tanto que os 1500 exemplares inicialmente prensados esgotaram numa semana, com as vendas a atingir o patamar das 300 mil cópias em dois meses, atingindo a marca do milhão em menos de um ano. “Primavera nos Dentes” acompanha a par e passo a formação do grupo, a criação do mítico álbum de estreia e a vida de estrada que se seguiu, notando o desapego com que Nem Matogrosso lidava com os rendimentos, deixando claro que más decisões no plano do management podem minar um percurso de sucesso. As páginas observam a presença de jogos de poder que aceleram o degradar do relacionamento interno entre o grupo que parte para a gravação de um segundo álbum de estúdio já com uma ideia de fim na linha do horizonte, não repetindo de facto esse “Secos e Molhados II” (1974) a resposta que o disco de estreia havia gerado um ano antes. Mas o mundo da música no Brasil não mais seria o mesmo, representando esse álbum mítico de 1973 uma das maiores referências para muitas ideias que dali nasceram nos últimos 50 anos. O livro enquadra esta odisseia no quadro político, social e cultural que viu este fenómeno nascer.
“1964: Eyes of the Storm”, de Paul McCartney
“Autobiografia. Volume 2”, de Rita Lee
“Caetano Veloso – Letras”, org. Eucanã Ferraz
“George Michael: Faith”, de Michael Horton
“Goth: A History”, de Lol Tolhurst
“Hip Hop Tuga”, de Ricardo Farinha
“Madonna: A Rebel Life”, de Mary Gabriel
“Primavera nos Dentes”, de Miguel de Almeida
“Santa Bárbara, Capista de Zeca”, de Abel Soares da Rosa
“This Must Be the Place: Music, Community and Vanished Spaces in New York City”, de Jesse Rifkin
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MÚSICA EM CINEMA
“Wham!”, de Chris Smith

A amizade e respeito entre George Michael e Andrew Ridgley, assim como uma ideia de celebração de juventude, são o tutano de uma história que durou quatro anos e nos deixou grandes canções, agora relatada pela voz de ambos num documentário. Trabalho magistral de montagem de material de arquivo – estarmos em claro terreno “found footage” -, contando apenas com as vozes de George Michael e de Andrew Ridgley (este certamente numa entrevista feita recentemente a pensar no projeto), o filme mostra como a breve vida dos Wham! (Entre 1982 e 84) expressou sobretudo uma ideia de celebração de amizade entre os dois amigos, deixando, pelo ponto final precoce, aquela mesma marca que associamos à “trágica” ideia do “die young stay pretty” que ligamos a tantos ícones pop desaparecidos nos dias de juventude. O filme acompanha os discos, a evolução da imagem, a reação dos media e do público, mas também os acontecimentos mais privados, nomeadamente a luta interior que George Michael vivia desde que tomara consciência da sua identidade. Face ao que recentemente surgiu em entrevistas, o filme não fala na eventualidade (então levantada pelo próprio George) de um terceiro álbum. Mas firma um bom retrato do que foi esta história e resolve de vez a “má imprensa” que em tempos não entendeu o papel de Andrew em todo este percurso. Sem ele nunca teria havido Wham! nem, como consequência, o percurso de maturação que permitiu a George Michael encontrar a confiança na escrita e a sua voz criativa. Aquele era o percurso inevitável a dois. E, convenhamos, com uma obra que nos deixou um belo punhado de grandes canções.
“A Future History Of: The Elephant 6 Recording Co.”, de Chad Stockfish
“American Symphony”, de Mathew Heineman
“Ennnio, O Maestro”, de Giuseppe Tornatore
“If These Walls Could Sing”, de Mary McCartney
“Love to Love You, Donna Summer”, de Roger Ross Williams
“Renaissence: A Film By Beyoncé”, de Beyoncé Knowles
“Squaring The Circle (The Story Of Hipgnosis)”, de Anton Corbijn
“Wham!”, de Chris Smith
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E na televisão…

“John Lennon: Murder Without a Trial” (Apple TV)
“Longe de Cabul” (RTP)
“Raffa” (Disney +)
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E ainda em DVD e BLU-RAY

“David Bowie: Ziggy Stardust And The Spiders From Mars: London’s Hammersmith Odeon 1973 The Motion Picture 50th Anniversary Edition”, de D.A. Pennebaker
“Duran Duran – A Hollywood High”, de Gavin Elder
“Pink Floyd: Atom Heart Mother 1970 / Hakone Aphrodite Japan 1971”
“The Rolling Stones: GRRR Live! Newark New Jersey’s Prudential Center 2012”
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OUTROS FILMES

“Close”, de Lukas Dhont
“Ice Merchants”, de João Gonzalez
“Jeanne du Barry: A Favorita do Rei”, de Maïwenn
“Maestro”, de Bradley Cooper
“O Assassino”, de David Fincher
“O Crime é Meu”, de François Ozon
“O Sol do Futuro”, de Nanni Moretti
“Tar”, de Todd Field
“Toda a Beleza e a Carnificina”, de Laura Poitras
“Ursos Não Há”, de Jafar Panahi
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OUTRAS SÉRIES

“A Diplomata” T1 (Netflix)
“Barry” T4 (HBO Max)
“O Mundo Segundo Cunk” (Netflix)
“For All Mankind” T4 (Apple TV)
“Full Circle” (HBO Max)
“Furia” (Filmin)
“Fellow Travelers” (Sky Showtime)
“Histórias da Montanha” (RTP)
“Lições de Química” (Apple TV)
“Spy/Master” (HBO Max)
“Succession” T4 (HBO Max)





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