A criação de concertos em locais especiais tem sido, ao longo dos anos, uma frequente opção para atuações ao vivo por Jean Michel Jarre. Desde uma célebre atuação na Place de La Concorde, em Paris, a 14 de julho de 1979, pouco depois do lançamento de “Equinoxe”, a grandes eventos realizados nas ruas de cidades como Londres, Lyon, Houston, Moscovo, Hong Kong, Cairo ou Berlim, isto sem esquecer a histórica digressão de cinco datas entre Pequim e Xangai em 1981 (das quais nasceu o álbum “Les Concerts en Chine”), que representou a primeira tour de um artista ocidental em território chinês, o seu percurso frente a plateias colecionou já uma multidão de episódios dignos de um daqueles mapas nos quais vamos inscrevendo os lugares de exceção por onde passamos. Só depois de 1997, com uma primeira digressão centrada no álbum de estreia “Oxygène”, o vimos a aceitar com mais regularidade uma agenda em que as salas tomavam o lugar até aqui quase sempre ocupado por grandes eventos no exterior. Portugal, que só o viu finalmente listado para rumar ao palco numa segunda digressão focada nesse mesmo álbum de 1976 (com paragens nos coliseus de Lisboa e Porto em abril de 2008), chegou a estar na sua mira para projetos de concertos especiais. Na verdade foram três, as oportunidades que ele mesmo em tempos me confirmou em conversa: ”uma na Praça do Comércio, outra na zona da Expo [ambas em Lisboa] e uma terceira no Porto”, mas “por várias razões nunca se concretizou” qualquer dessas situações.
Na verdade, e como ele mesmo explicou nessa mesma entrevista, por ocasião da tour que celebrava os 30 anos de “Oxygène”, há um porquê para justificar esta recorrente opção por lugares especiais, ao notar que, se por um lado os instrumentos usados na música acústica e até mesmo a elétrica “foram criados para a performance”, já os que são usados na música electrónica nasceram “no laboratório, nos estúdios”. Isto é, não surgiram com um fim apontado à “performance”, mas antes “para a experimentação”. E começa assim a sua argumentação, que aponta como “foi preciso, depois, pensar como levá-los ao palco”, tendo em conta que ficar de pé umas duas horas atrás de um laptop “não é a coisa mais sexy do mundo para ver num palco!”. E daí a reflexão sobre como poderia afinal levar aquele “lado físico dos instrumentos do rock, ao palco de um concerto de música electrónica”. Da mise-en-scène, desde o design do palco à disposição dos músicos, da cenografia dos lugares em volta (ruas, praças, edifícios) à sua iluminação, chegaram as respostas. E essa relação visual, como ele mesmo apontou, tem até uma relação antiga com o mundo da ópera: “Os compositores abordavam cenógrafos, carpinteiros, pintores, decoradores, e até mesmo escritores, para poderem visualizar a sua música”. No seu caso, como explicou, recorreu aos instrumentos do seu tempo: “o vídeo, o laser”. A esta ideia somou ainda outra, que o conduziu aos espaços que eventualmente poderiam acolher estes momentos especiais de música ao vivo: “Sempre achei que a minha música não era coisa de caves, tal como o rock, mas sim do espaço público”. Depois teve em conta “a dimensão dos lugares”, observando como, aquando “ao ar livre, podemos ter mais gente que numa sala”. E assim “as coisas foram-se transformando”. Jean Michel Jarre não escondeu ainda que sempre viveu “obcecado pelo one off, pelas coisas que não se repetem”, conceito que ele mesmo já elevou para além dos palcos aos próprios discos, no célebre “Musique Pour Supermarché” editado com um único exemplar em 1983.

Foi assim, neste mesmo quadro de referências, que se inscreveu mais um momento único, registado quase dois anos após uma atuação numa Notre Dame virtual criada em plena pandemia para assinalar a passagem de ano de 2020 para 2021 e da qual nasceria depois o álbum “Welcome to the Other Side: Concert from Virtual Notre-Dame”. A 25 de dezembro de 2023 a Galeria dos Espelhos no Palácio de Versalhes foi o espaço escolhido para mais um concerto único, desta vez pensado em três dimensões, como ele mesmo deixou claro quase no início da atuação. Por um lado aquele era um concerto para quem ali estivesse com ele a partilhar aquela sala central da vida na corte de Versalhes. Depois, havia ao mesmo tempo uma experiência em paralelo no metatarso, que obrigava à utilização de uns óculos e sistema de som que poderiam colocar o “espectador” numa Galeria dos Espelhos virtual na qual um avatar do próprio Jean Michel Jarre estava entre o seu batalhão de máquinas, escutando-se todavia ali o som da atuação no mundo “real”. Uma terceira via surgiu via televisão (para França) e, mais tarde, em diferido, através do YouTube.
Naquele espaço tão carregado de memórias e símbolos Jean Michel Jarre, desta vez completamente a solo, munido apenas de teclados e pads (que permitiam criar sons, aceder às suas próprias bibliotecas e misturar ali mesmo, ao vivo), começou por evocar ecos dos tempos em que aquele era um símbolo do poder real. E, tal como Murcof o fez quando o Palácio de Versalhes o desafiou a criar uma atuação site specific nos seus jardins, Jarre trouxe ao nosso tempo ecos de Lully, um dos compositores da corte de Luís XIV. E assim, desta vez com tratamento electrónico, Versalhes escutou a “Marche Pour Cérémonie des Turcs”, peça que integrava uma comédia-ballet nascida de uma colaboração histórica entre Jean-Baptiste Lully e Molière: “Le Bourgeois Gentilhomme” (que em português conheceu já traduções como “O Burguês Fidalgo”, “O Cavalheiro Burguês”, “O Burguês Gentil-Homem” ou “O Burguês Ridículo”), estreada no Palácio de Chambord em 1670. O alinhamento percorreu depois memórias dos álbuns “Oxygène” e “Equinoxe” (em versões “atualizadas”), assim como revistou “Revolution Industrielle 2”, “Cronologia 6” ou a abertura criada para a abertura da atuação em Coachella em 2018, terminando em clima mais acelerado com “Zero Gravity” (criada em colaboração com Edgar Froese dos Tangerine Dream), “Stardust” (nascida de uma parceria com Armin van Buuren), “The Architect” (co-escrita com Jeff Mills) e “Falling Down”, todas elas do dístico “Electronica” de 2015/16. O vídeo da atuação está (ainda) disponível non YouTube. E resta agora espertar que, ao invés da primeira passagem de Jean Michel Jarre por Versalhes (em setembro de 1994), este concerto, integrado no programa das comemorações dos 400 anos do palácio, possa dar origem a mais um álbum ao vivo…





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