O vinil colorido tem uma história bem mais antiga do que a que atual vaga de edições e reedições mas mais diversas cores e padrões possa sugerir. Antes do volume garrido de lançamentos em vinil colorido que surgem a cada Record Store Day ou até mesmo os títulos integrado em campanhas de lançamento pensadas como quem sugere (a eventuais colecionadores e fãs) que podem comprar mais do que uma vez o mesmo disco, o vinil colorido existia mais como uma situação de exceção do que como norma. Não o é, claro. Mas basta lançar os olhos sobre as montras das lojas de discos atuais para vermos que o vinil colorido deixou de ser coisa rara, mas antes uma opção frequente.
Com o negro definido como padrão pelos primeiros discos patenteados por Emile Berliner ainda em finais do século XIX, as primeiras exceções à regra chegaram com o ano 1900 na linha do horizonte com edições nas cores vermelha e castanha pela Vitaphone Talking Machine Co, às quais se seguiram os lançamentos em cartão laminado castanho da Nicole Records (entre 1904 e 1908) ou, já nas décadas de 1910 e 1920, os célebres discos vermelhos e castanhos da Vocalion, sobre os quais a companhia dizia serem de maior durabilidade.
Depois de algumas edições de discos de 78 rotações coloridos que a Columbia apresentou nos anos 30, a década de 40 revelou alguns dos títulos hoje mais disputados entre colecionadores: as edições em vinil multicolorido da Morrisson Records, de Seattle. Mesmo sem artistas de renome no seu catálogo, o aspecto invulgar destes discos tornou-os peças de coleção.



A chegada do formato do single a 45 rotações, no final da década de 40 levou a RCA Victor a apostar na cor como forma de distinguir o estilo musical dos seus lançamentos. Havia então várias séries, todas com cores diferentes, cabendo o vermelho à música clássica ou o verde ao country & western, o azul escuro aos clássicos populares e canções vindas dos musicais, o amarelo à música infantil, o tom de cereja cabia ao gospel e ao rhythm’n’blues, o azul claro aos lançamentos internacionais. O vinil negro cabia aqui à música pop. Esta ideia revelou-se economicamente inviável e, chegados aos anos 50, os singles da RCA eram já todos prensados em vinil negro.
Ainda nos anos 50 o vinil colorido passou pelas ações de pequenas editoras como a Aladdin Records ou a Crown Records, esta última dedicada a edições budget com títulos que já haviam conhecido as suas carreiras no mercado e assim, pela cor, ganhavam outro potencial de sedução. Outra editora com edições a baixos preços, a californiana Tops, usou o vinil colorido como parte da estratégia de marketing dos álbuns que então lançava através da sua etiqueta Mayfair. Já nos anos 60, para assinalar a chegada das edições em estéreo, a Liberty Records apresentou alguns títulos em vinil colorido. “Exotic Sounds from the Silver Screen” de Martin Denny teve uma edição em vinil vermelho em 1960 e, no mesmo ano, “Omnibust” de Spike Jones (numa etapa em que assinava Spike Jones And The Band That Plays For Fun) surgiu em vinil azul e também em vinil vermelho. Também a assinalar a chegada do estéreo, a Bel Canto Records, de Columbus (Ohio), apostou igualmente na cor, tendo lançado um álbum de demonstração em vinil multicolorido em 1959. Estas opções não se esgotavam nos Estados Unidos havendo, nos anos 50 e 60 lançamentos em vinil colorido ora no Japão ora em Taiwan.
A partir dos anos 60 o vinil colorido surgiu mais frequentemente em títulos para efeitos promocionais. A Columbia tomou esta como uma opção estratégica em vários lançamentos, tal como o fez então a Chess Records. A criação de edições especiais limitadas ganhou também visibilidade logo a seguir, tendo surgido, entre outras, versões em vinil colorido de álbuns como “Reel Music” dos Beatles (vinil amarelo), “Like a Virgin” de Madonna (vinil branco) ou “Introducing Sparks” dos Sparks (vinil vermelho).
Com tiragens maiores, preços mais acessíveis mas mantendo a pontaria feita aos colecionadores e fãs, edições de vinil colorido em maior volume de prensagens começaram a surgir nos anos 70, tendo vivido um ressurgimento já no século XXI, em muitos dos casos mais célebres com ligações a ocasiões especiais, nomeadamente o Record Store Day, em alguns casos recente o vinil colorido correspondendo à edição standard ou de reedições (Bowie tem sido um caso) ou até mesmo novos discos. Ao mesmo tempo foram surgindo tiragens muito limitadas, raras, por vezes únicas, como, entre outras, um “A Hard Day’s Night” dos Beatles em vinil cor de rosa, duas cópias de “Let It Bleed” dos Rolling Stones em vinil multicolorido ou um exemplar de “River Deep Mountain High” de Ike & Tina Turner em vinil azul, isto segundo uma listagem publicada pela Rare Records. Em 1983 o álbum “Speaking In Tongues” dos Talking Heads teve uma edição limitada em vinil transparente, incluindo uma capa de plástico desenhada por Robert Rasuchenberg. A ideia, aqui, não era novidade absoluta já que, em 1971, o álbum de estreia dos Faust também havia surgido em vinil transparente, e com uma capa de plástico.



O Gira Discos resolveu escutar alguns colecionadores (alguns deles também ligados a lojas de discos) sobre este tema. E começámos por tentar encontrar uma explicação para a recente maré de edições e reedições em vinil colorido. “Com o interesse no vinil a crescer nos últimos anos, as editoras quiseram encontrar novas maneiras de tornar as suas edições mais apelativas e potenciar mais vendas”, explica Hugo Moutinho, que trabalha na Louie Louie (Lisboa). Ele continua: “Da estratégia de fazerem edições limitadas em vinil colorido, a par da edição normal em vinil preto – que não só funcionou como espevitou o instinto coleccionista -, passaram, no caso de alguns artistas mais mediáticos, a editarem discos em cores diferentes e com capas diferentes. No fundo, é tudo uma questão de satisfazer a demanda. Depois existem aqueles que tentam combater essa estratégia, com algum sentido de humor, e fazem edições mais limitadas em vinil preto do que em vinil colorido, mas estes são uma minoria. Em paralelo, tem havido uma tendência em que os discos são editados exclusivamente em vinil colorido, com a cor do vinil a ser parte integrante do design, com as cores a estarem em linha com a imagem da capa”. Pedro de Freitas Branco, a residir há já alguns anos no Rio de Janeiro, crê que este volume de lançamentos se deve, “primeiro, para tornar a edição em vinil ainda mais apelativa nesta era digital/virtual; segundo, para “explorar” colecionadores impulsivos, completistas, conseguindo-se assim vender várias vezes o mesmo disco”. E conta que conhece “vários colecionadores da velha guarda, no Rio de Janeiro, incapazes de resistir a prensagens do mesmo LP em cores diferentes. Não é novidade. Basta lembrar os discos coloridos de jazz nos anos 50, as edições japonesas coloridas nos anos 60, ou a moda de LP e máxis coloridos no final dos anos 70”. Isilda Sanches (da Antena 3) defende que este “é mais um argumento de mercado para vender o objecto musical. Para muitas pessoas, uma edição especial em vinil justifica melhor a compra de música que pode ser ouvida facilmente online. Além de ser diferenciador, o vinil colorido tem valor de coleccionador, o que também é atrativo para muita gente”.
E será que o vinil colorido já levou algum destes colecionadores a comprar novamente uma edição apenas por esse facto: o da cor? “Só por ser colorido? Não!”, responde de imediato Pedro de Freitas Branco. A edição tem de acrescentar mais alguma coisa que o faça “sucumbir à tentação”, reconhece, tanto “na forma como no conteúdo, como uma capa diferente, inner sleeve distinta, poster adicional, faixas extra, etc, etc.” Mesmo em relação aos Rolling Stones, banda da qual é “colecionador profissional” diz que “não basta o disco ser colorido. A menos que estejamos a falar de edição antiga, de época. Nesse caso, sim. Exemplo: o maxi-single de “Miss You” (1978) foi apresentado em cores diferentes consoante os países. Vermelho, cor de rosa… Esses não me escaparam!”.

Vinil por ser colorido, marcha? “Não, muito pelo contrário”, diz Hugo Moutinho, que hoje em dia conta que “evita” comprar discos em vinil de cor: “Já não é um formato que me atraia e as edições em vinil preto são, por norma, mais baratas. Mas se um disco que eu queira só tiver sido editado em vinil colorido não deixo de o comprar por causa isso”. Isilda Sanches acrescenta crer que “vinil colorido equivale a pior prensagem e pior som”. Também colecionador, Abel Rosa, autor de bibliografia sobre discos, conta que compra um disco “por aquilo que oferece em termos musicais e ou de qualidade (remasterização, vinil de 200 gramas, etc), mas nunca pela cor”.
E apesar deste ceticismo, terão estes colecionadores discos coloridos nas respetivas coleções? “Tenho até bastantes”, confessa Hugo Moutinho. E explica: “a dada altura decidi coleccionar as versões coloridas, e muito limitadas (150 ou 200 cópias), de uma editora americana, a Estrus. Foram os únicos que coleccionei e devo ter ficado vacinado porque nunca mais os procurei. E o último que comprei, uma reedição do primeiro LP homónimo dos Black Eyes (é daqueles casos em que só foi reeditado em vinil colorido e comprar uma edição original ficaria, pelo menos, o dobro do preço deste).”
Pedro de Freitas Branco também tem discos coloridos: “Tenho, claro. Dezenas deles. Além do já citado maxi de Miss You – em três cores diferentes -, posso destacar uma edição inglesa da Stiff Records, e outra da norte-americana Sire, ambas de 1978: On The Other Hand There’s A Fist, de Jona Lewie (Stiff); Road To Ruin, dos Ramones (Sire). Dois exemplares em amarelo vivo. Entretanto, perdi a conta desde que os Stones passaram a adoptar diversas cores e variações nestas novas “edições de arquivo”, de concertos ao vivo”.
Por seu lado Isilda Sanches diz que tem poucos, alguns promocionais: “Destaco um máxi de Arthur Russell/Loose Joints azul, que saiu com a compilação The World Of Arthur Russell da Soul Jazz . E o Overworld de A.r.t. Wilson, em vinil cor de rosa (que eu saiba é a única prensagem que existe)”. Abel Rosa conta que tem também discos coloridos dos Beatles e de títulos a solo dos elementos dos fab four.





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