O álbum “Selvagem?”, que os Paralamas do Sucesso editaram em 1986, ano marcante na história do pop/rock made in Brasil, é o protagonista do mais recente lançamento integrado na coleção O Livro do Disco da editora brasileira Cobogó. Foi há já dez anos, em 2014, que esta coleção deu os primeiros passos, surgindo na senda do que, em territórios com língua oficial inglesa ia acontecendo com a coleção 33 1/3, ou seja, a criação de pequenos livros (em formato de bolso e habitualmente em volta das 150 páginas), cabendo a cada volume o desafio de abordar um único disco, frequentemente procurando contar a história da sua criação, dos seus autores, do contexto em que surgiram e o impacte que eventualmente terão gerado. Nos primeiros tempos muitos dos lançamentos da Cobogó apresentaram traduções de títulos da série 33 1/3 dedicados a discos de nomes como os Velvet Underground, Joy Division, Led Zeppelim, Stevie Wonder ou Jimi Hendrix, entre outros mais… Mas a esta discoteca essencial do pop/rock internacional (e periferias) começaram a juntar-se títulos de raíz, que assim foram trazendo à coleção artistas e álbuns maiores da história da música popular brasileira, seja em territórios mais próximos da bossa nova, samba ou MPB ou nascidos em terreno pop/rock. Clássicos como “Clube da Esquina” de Milton Nascimento e Lô Borges, “A Tábua de Esmeralda” de Jorge Ben Jor, “Refavela” de Gilberto Gil ou o mítico disco coletivo “Tropicália: Panis et Circencis”, manifesto do tropicalismo, são assim pilares de uma coleção que, entretanto, acolheu volumes dedicados a nomes como Nara Leão, Gang 90 & as Absurdettes, Legião Urbana, Racionais MCs, Chico Science e a Nação Zumbi, Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho ou Marina Lima. 

Sucessor de “O Passo do Lui” (1984), que vincara marcas de identidade no som dos Paralamas do Sucesso, conquistando atenções substancialmente maiores do que o disco de estreia “Cinema Mudo” (1983), o álbum “Selvagem?” não só foi determinante para a afirmação de um estatuto de sucesso da banda de Seropédica (no estado do Rio de Janeiro) como traduz um tempo marcante na história brasileira, nascido em pleno processo de redemocratização do país. De resto, entre o anterior “O Passo do Lui” e a edição e impacte de “Selvagem?” o Brasil vive a reta final da movimentação que ficou conhecida como “Diretas Já”, o fim da ditadura militar, a eleição de Tancredo Neves para o Palácio do Planalto, a sua morte antes de tomar posse a sucessão na figura de José Sarney e uma intervenção sobre a moeda que ficou na história como “Plano Cruzado”. Nesse mesmo intervalo dá-se a primeira edição do Rock In Rio, momento determinante no historial da relação da música com os palcos no Brasil. E assim, num quadro política, social e culturalmente definido num tempo de transições, eis que surgem ecos do quotidiano refletidos em canções de uma nova geração de bandas pop/rock, dos Legião Urbana (“Dois”), Engenheiros do Hawaii (“Longe Demais das Capitais”), Titãs (“Cabeça Dinossauro”), Ira (“Vivendo e Não Apodrecendo”), o álbum ao vivo dos RPM (“Rádio Pirata ao Vivo”) e, claro, “Selvagem?” dos Paralamas do Sucesso. Assinado por Mario Luis Grangeia, investigador, sociólogo e jornalista (autor de bibliografia sobre Cazuza, Renato Russo e com o livro “Irmãos de Além Mar? Olhares Portugueses à Imigração no Brasil” no prelo), o livro dedicado ao álbum de 1986 dos Paralamas do Sucesso começa por desenhar o contexto político, social e cultural no qual esta música nasce, nota as rotas musicológicas que o definem (nomeadamente as que conduzem a uma busca de identidade para além das rotas centrais das linguagens pop/rock), escuta as canções uma a uma e observa depois as reações à chegada do disco, o seu impacte. Uma bela leitura para compreender como os discos podem ser, além de uma expressão artística de quem os cria, documentos vivos de um tempo, uma sociedade e o seu quotidiano. 

“Selvagem?”, de Mario Luis Grangeia, é uma edição em capa mole, de 168 páginas, num lançamento da editora Cobogó.

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