A aurora do milénio devolveu protagonismo aos mais recentes herdeiros de linguagens do rock’n’roll. Nova Iorque foi então um importante epicentro de ideias dado o impacte da entrada em cena dos Strokes (com um álbum de estreia verdadeiramente marcante em 2001) e a consequente concentração de atenções noutras figuras emergentes, ora sob formas mais abrasivas (com os Yeah Yeah Yeah) ora segundo matrizes primordiais do próprio rock’n’roll (Black Rebel Motorcycle Club) ora ainda a traduzir mais claros sinais dos tempos através de assimilações da club culture e ecos da nova cultura indie nova-iorquina (via LCD Soundsystem, TV on The Radio ou The Rapture). Pouco depois era o Canadá quem desviava os focos da descoberta, primeiro com uns Broken Social Scene, mais adiante com uma vaga de nomes que apresentava um caso sério na linha da frente: os Arcade Fire (que, tal como os TV on The Radio e Yeah Yeah Yeahs contavam com palavras de entusiasmo de David Bowie). Quando os Arcade Fire estavam a cativar crítica e plateias, já um outro nome havia entrado no mapa, desviando o azimute dos olhares também para a Escócia, mais concretamente a cidade de Glasgow da qual um quarteto, de músicos com rodagem feita em projetos anteriores, com dois singles promissores já editados (um deles, “Take Me Out”, tendo trepado ao Top 3 no Reino Unido), emergia com um álbum de estreia que fez história.

Com nome que evoca uma figura histórica (o arquiduque Francisco Fernando, o primeiro na linha de sucessão ao trono do Império Austro-Húngaro, cujo assassinato em Sarajevo, em 1914, fora o gatilho que espoletara a I Guerra Mundial), os Franz Ferdinand mostravam no álbum ao qual davam o seu nome uma relação com a música elétrica que não se esgotava nos alicerces primordiais do rock’n’roll, acrescentando angulosidade funk, ocasionais ritmos colhidos nas descendências do disco, um gosto cenográfico por jogos de contrastes e uma paleta temática que levava às canções histórias e experiências diferentes e desafiantes. Talvez mais perto dos caminhos de um pop/rock sagaz (que muitas vezes tem berço em escolas de artes) do que dos trilhos sobretudo festivos seguidos nos noventas quer pela folia “Madchester” (e afins) quer pela multidão brit pop, as canções dos Franz Ferdinand transportavam em si, além de outros pontos de vista, inteligência e sentindo de humor, um viço e um sentido de urgência que encontrava na verdade afinidades mais evidentes para com ecos do pós-punk. Gravado em Malmö (Suécia), com um produtor com percurso feito em domínios pop/rock com vistas largas, “Franz Ferdinand”, casa de canções que fizeram história como “Darts Of Pleasure”, “Michael”, “This Fire” ou o já citado “Take Me Out” o álbum de estreia dos Franz Ferdinand aliou uma vez mais fulgor da música elétrica ao prazer da dança. Mas em lugar de meras rotas de escape, a coisa desta vez juntava ingredientes que deixavam antever um percurso não só festivo mas, tal como sucedera com uns Talking Heads ou uns Orange Juice, capaz também de nos desafiar.
“Franz Ferdinand”, dos Franz Ferdinand, está disponível numa nova prensagem em LP pela Domino.





Deixe um comentário