Apesar de ter uma obra vasta, explorando as mais diversas formas musicais, Michael Nyman tem no cinema um dos pólos mais importantes (e reconhecidos) da sua atividade enquanto compositor. Assinou já música para inúmeros filmes, tendo trabalhado juntamente com realizadores como Neil Jordan, Jane Campion ou Andrew Niccol. Foi, contudo, com Peter Greenaway que manteve longa e frutuosa ligação profissional que definiu uma firme personalidade musical que cimentou heranças e da, sua assimilação, fez nascer uma linguagem pessoal. O exemplo maior desse tipo de encontros (entre as referências musicais do próprio compositor e as imagens de Greenaway) podemos encontrá-lo na banda sonora que, em 1988, compôs para “Drowning By Numbers” (entre nós estreado com o título “Maridos à Água”), que então surgiu em disco como o décimo LP de uma obra ainda em afirmação, o sétimo que gravava com a sua Michael Nyman Band. A primeira gravação da música composta para este filme está disponível no catálogo da Virgin, contando então a Michael Nyman Band com a presença de Alexander Balanescu. 

Foi Michael Nyman quem, pela primeira vez, usou o termo “minimalista” para classificar uma música que tinha raízes na obra de uma série de compositores norte-americanos que ganhavam visibilidade em finais dos anos 60 e que, por essa altura, começava a ter ecos no Reino Unido, de onde é natural. Crítico musical, musicólogo, mais tarde compositor, Michael Nyman é ele mesmo um exemplo maior dessas mesmas heranças em solo europeu. A sua música junta contudo às lições dos minimalistas todo um corpo de memórias escutadas na tradição clássica ocidental, da soma dos elementos nascendo uma linguagem que sabe assim cruzar ideias e estabelecer pontes entre tempos distintos. “Drowning By Numbers” é exemplo claro dessa mesma atitude, procurando em Mozart matéria prima para uma série de reflexões que decorrem do aflorar de uma interpretação muito pessoal de ideias originalmente escutadas no troco central da obra dos minimalistas norte-americanos. O impacte global que mais tarde teve a música de “O Piano”, de Jane Campion, faz com que essa seja talvez a mais citada das suas obras. O melhor do seu trabalho de Nyman para o cinema reside, contudo, nas composições que gravou para Peter Greenaway nos anos 80 e que, juntamente com obras como “1-100” (1976), “In Re Don Giovanni” (1977), “Water Dances” (1984) ou a ópera “The Man Who Mistook His Wife For A Hat” (1986) definem o corpo central da identidade da sua música. 

Foi o realizador Peter Greenaway quem, na verdade, chamou a atenção de Michael Nyman para a “Sinfonia Concertante para Violino, Viola e Orquestra” de Mozart. E de uma série de compassos nasceram 92 variações que então usaram no filme “The Falls” (1980). Anos depois, o mesmo andamento lento da mesma obra de Mozart surgiu no centro da ideia musical que determinou o caminho para a banda sonora de “Drowning By Numbers”. Desta vez Michael Nyman não se limitou aos compassos explorados oito anos antes, abordando antes todo o andamento desta obra de Mozart como ponto de partida para a composição. O compositor explorou harmonias, identificou e vincou simetrias, das características encontradas fazendo nascer uma reinterpretação que, mesmo clara na referência de origem, é indubitável e caracteristicamente sua. Definido, de resto, a expressão definitiva de uma demanda já com exemplos anteriores em “The Draughtman’s Contract” (1982) e “A Zed And Two Noughts” (1985) mas aqui atingindo as metas de identidade pretendidas. Depois deste episódio de 1988 compositor e realizador voltaram ainda a encontrar-se em “The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover” (1989) e “Prospero’s Books” (1991).

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