Ter no currículo a co-autoria de canções como “Vienna”, “Real The Wild Wind” ou “Dancing With Tears In My Eyes”, todas elas gravadas pelos Ultravox na primeira metade dos anos 80, não é coisa pouca. E estes são feitos que não escapam agora às palavras que invariavelmente surgem agora para dar conta do desaparecimento, aos 71 anos, de Chris Cross, o baixista que esteve no grupo desde a sua formação até ao final de uma etapa que chegou depois da edição de “U-Vox” (1986), tendo voltado a juntar-se aos velhos companheiros por ocasião da reunião que devolveu à estrada as canções do álbum “Rage In Eden”, participando então no álbum “Brilliant”, disco de 2012 que assim fixou, com novos originais, esta derradeira etapa na vida do grupo.
Nascido em Londres em 1952, Christopher Thomas Allen (o seu nome real) fez um percurso natural entre primeiras bandas (entre as quais os Stoned Rose) ao mesmo tempo que ia trilhando um eventual caminho futuro na psicologia. Em 1973, estando então a frequentar o Art College em Londres, responde a um anúncio que procura juntar músicos para uma nova banda. No epicentro do projeto está um colega da mesma escola, Dennis Leigh, que pouco depois ficaria conhecido com o pseudónimo John Foxx. Chris respondeu ao anuncio, juntamente com o baterista Warren Caan (que fora recentemente rejeitado numa audição dos Sparks) e o baterista Stevie Shears. Animados pelo então efervescente glam rock, os Tiger Lilly fazem então um caminho natural entre salas de ensaio e primeiros palcos, recrutam pelo caminho o violinista Billie Currie e chegam mesmo a editar um single (“Ain’t Misbehavin’”, versão de um original de 1929 de Fatz Waller). Contudo, chegados a 1976, e após algumas mudanças de nome (entre os quais The Zips e Fire Of London) optam por passar a apresentar-se como Ultravox!. Na ocasião o baixista Chis, que durante a etapa Tiger Lilly respondera como Chris St. John, passou a adotar um novo nome de palco: Chris Cross.
É com algumas novas canções, juntamente com outras nascidas ainda nos tempos em que respondiam como Tiger Lilly, que os Ultravox! se estreiam em 1976 no catálogo da Island com um álbum homónimo ao qual se seguem “Ha Ha Ha” (1977) e “Systems of Romance” (1978) nos quais, primeiro ao som de “Hiroxima Man Amour”, depois em canções como “Quiet Man” ou “Slow Motion” se nota uma evidente entrada em cena dos sintetizadores e sinais claros de novos caminhos para a canção pop que anunciavam já pistas que os anos 80 iriam explorar. O sucesso, porém, escapou a esta fase da vida dos Ultravox. E a falta de resultados fez com que a editora colocasse um ponto final no seu relacionamento. Decididos a não desistir marcaram eles mesmos uma nova digressão americana. Mas a coisa não correu bem. O guitarrista Robin Simon afastou-se por razões pessoais, acabando por se casar e viver por uns tempos em Nova Iorque antes de regressar ao Reino Unido, onde então colaborou pontualmente com os Magazine antes de retomar a ligação com John Foxx, que fora até 1979 a voz dos Ultravox. Depois da noite final da digressão americana, o vocalista decidira igualmente partir, neste caso para um percurso em nome próprio (numa separação que ainda hoje é contada em versões diferentes pelas partes que então entraram em conflito).
Na primavera de 1979, os Ultravox estavam reduzidos a um trio: o baixista Chris Cross, o baterista Warren Cann e o teclista Billy Currie. Todos eles encontraram trabalhos ocasionais por aqueles dias. Chris Cross trabalhou num projeto do guitarrista dos Pretenders. Já Billy Currie viu-se a bordo dos Visage, uma nova aventura então musicalmente coordenada por Rusty Egan (o DJ das noites “Bowie” que então começavam a cativar atenção em Londres), com rosto mediático nas mãos de Steve Strange e o guitarrista Midge Ure. Foi Rusty Egan quem referiu a Billy Currie que ali mesmo, entre o núcleo original dos Visage (que em 1979 se estreavam com o single Tar), tinham o elemento que lhes faltava para dar novo rumo aos Ultravox, reunindo não apenas o facto de ser um bom guitarrista como uma voz segura e um bom compositor. E então, com Midge Ure a bordo, o grupo (agora um quarteto e agora sem o ponto de exclamação no nome) reinventa-se, obtendo sólidos resultados logo com o álbum “Vienna” (1980), solidificando um novo estatuto com os seguintes “Rage In Eden” (1981), “Quartet” (1982) e “Lament” (1984). Houve ainda um quinto álbum de estúdio “U-Vox” (1986), editado depois de uma bem sucedida estreia a solo de Midge Ure em 1985, mas sem o mesmo impacte, seguindo-se à digressão então realizada um ponto final para Chris Cross, assim como para Warren Cann e o vocalista, mantendo-se apenas a bordo, numa nova formação, o teclista Billie Currie. A reunião, em 2009, do quarteto da fase 1980-86, deu depois ao grupo uma quarta etapa de vida, que então se prolongou até 2014.
Com grande parte da sua obra criada a bordo dos Ultravox, Chris Cross somou ainda algumas experiências pontuais, entre as quais os projetos coletivos The Secret Police Choir (1981) e Band Aid (1984), a composição da música para “The Bloodied Sword” (1983), além de colaborações pontuais em discos de outras bandas e músicos. O seu percurso passou ainda pela criação de imagens tendo co-assinado, com Midge Ure, telediscos para as Bananarama (“Shy Boy”) ou os Fun Boy Three (“The Telephone Always Rings”).





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