O tempo tem vindo a dar razão aos que cedo reconheceram em Leonard Bernstein não apenas uma das mais vivas vozes de uma identidade musical americana mas também um dos grandes compositores do século XX. Herdeiro de, por um lado, toda uma herança maior da música ocidental (admirador de Mahler, de quem foi importante divulgador num tempo em que a sua música não morava ainda entre o repertório sinfónico global como hoje conhecemos) e, por outro, atento observador da América do seu tempo, fez da sua música uma expressão do seu aqui e do seu agora, cruzando linguagens várias, muitas então vistas como realidades exteriores aos “cânones”, encontrando no jazz, na música popular e até mesmo nos palcos da Broadway as referências que lhe deram, devidamente assimiladas, importantes marcas de identidade. Figura de importante perfil político, fez da sua música, sobretudo a que expressava uma carga narrativa, espaço para aprofundar mais ainda toda uma série de visões sobre a cultura e sociedade americanas do século XX. Temeu ver o seu nome na “lista negra” dos apontados a dedo na América dos tempos de McCarthy. Antes, nos anos 40, integrou associações e grupos de esquerda. Mais adiante lutou pela candidatura (derrotada) de Eugene McCarthy nas primárias do Partido Democrata em 1968 e chegou a assustar a administração Nixon quando correram rumores sobre o que poderia representar a “Missa” que estava a compor para a inauguração do Kennedy Center, em 1970.
Todos estes caminhos conduziram-no, sem surpresa, para a banda sonora de um dos filmes norte-americanos social e culturalmente mais marcantes da década de 50. Com realização de Elia Kazan, assegurando a estreia de Eva Marie Saint e tendo dado a Marlon Brando um dos maiores papéis da sua carreira, todos eles de resto brindados com três dos oito óscares que o filme conquistaria entre as 12 nomeações atribuídas, “Há Lodo No Cais” (no original “On The Waterfront”) transporta-nos para o espaço de trabalho precário de estivadores num cais nova-iorquino daquele tempo e foca atenções sobretudo da trama e personagens. A música de Bernstein, aparentemente discreta (quando comparada com as outras duas experiências do maestro e compositor no cinema, nomeadamente as adaptações ao grande ecrã dos musicais “On The Town” e “West Side Story”), serve magnificamente, na sua face mais lírica, tanto os instantes de mergulho introspectivo e sequências românticas, como é capaz, depois, de acentuar episódios de tensão. Curiosamente, e apesar do impacte do filme e do facto de Bernstein (nomeado por este trabalho, mas não brindado com um Óscar) ser já um nome reconhecido em várias frentes (inclusivamente nas suas outras experiências para cinema), a música de “Há Lodo No Cais” não conheceu na altura senão expressão em discos de 78 rotações, gravados por várias orquestras, que destacavam apenas a música que se escutava no genérico, surgindo depois, em 1961, uma suite sinfónica que juntava vários segmentos da banda sonora num LP de Bernstein com a New York Philarmonic.

Durante anos a banda sonora de “Há Lodo No Cais” não existiu enquanto disco. De resto, nunca fora gravada em estúdio com o intuito de criar uma edição discográfica, tendo apenas sido registadas gravações, depois guardadas em acetatos, usados durante a própria rodagem do filme como elemento auxiliar do realizador, atores e demais equipa. Estas gravações de trabalho foram dirigidas por Morris Stoloff, com a Columbia Pictures Orchestra, tendo nascido em sessões conduzidas nos estúdios da própria Columbia Pictures habitualmente usados para este tipo de trabalhos de rotina na produção dos seus filmes. E foi precisamente a partir destes acetatos que, por ocasião de um restauro que conduziu a uma edição em Blu-Ray em 2014, que pela primeira vez surgiu em disco a totalidade da partitura criada por Leonard Bernstein para este filme, num lançamento que, todavia, se tornou entretanto uma peça de coleccionismo, uma vez que não conheceu (até ver) senão a edição original num CD que, à partitura oficial, junta ainda, entre os extras, um take rejeitado do tema usado no genérico, e uma peça de Bach com um arranjo do próprio maestro. O CD, lançado em 2014 nos EUA pela Intrada, teve depois lançamento europeu, em 2017, no catálogo da Soundtrack Factory.





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