Nunca tiveram o sucesso global de uns A-ha nem a visibilidade noutras latitudes de uns Kings Of Convenience ou Royksöpp. Mas os Bel Canto são uma das instituições maiores da música popular made in Noruega. Alternando períodos de atividade com pausas (durante as quais os músicos desenvolvem carreiras em paralelo e se multiplicam em colaborações), os Bel Canto conheceram contudo a sua etapa musicalmente mais marcante entre finais dos anos 80 e inícios dos noventas. É desse período que data “White Out Conditions”, álbum de estreia que colocou então no mapa indie europeu um episódio de revelação que, apesar de comparações com nomes do catálogo da 4AD como os Dead Can Dance ou Cocteu Twins, não deixava de afirmar claramente distintivas marcas de personalidade. 

Nascidos em Tromso em 1985, os Bel Canto ganharam inicialmente forma como um trio com vértices entregues à vocalista Anelli Drecker e aos músicos Nils Johansen e Geir Jenssen. Cruzando uma música marcada por cenografias ora mais atmosféricas, com cores pinceladas por sons de guitarras e bandolins, madeiras, flautas, ora definida por mais evidentes linhas desenhadas com percussão e electrónicas, “White Out Conditions” revelava na sua alma um interesse dos Bel Canto sobretudo por estímulos vindos de terrenos folk (de diversas geografias). Estes diálogos entre a folk e o desenho cénico das canções era contudo assimilado por vivências habituadas a um quotidiano acima do círculo polar ártico, toldadas pela longa noite do inverno, mapa que depois contrastava com as infindáveis horas de luz nos meses do verão. Destes jogos de contrastes e partilhas nasciam canções que lhes valeram frequentemente uma caracterização como pop “ártica”, termo que não se aplicaria da mesma forma no disco seguinte, “Birds of Passage” (de mais suaves arestas pop), criado em 1990 numa etapa em que se haviam mudado para Bruxelas, sede da editora Crammed Discs que então os representava. 

Esse segundo disco acabaria por definir o momento da separação do núcleo original, seguindo-se um regresso de Geir Jenssen a Tromso para, através do seu projeto a solo Biosphere aprofundar a noção de uma música ártica que teve ainda expressão significativa em nomes como Röyksopp, Bjørn Torske, Alanïa, Mental Overdrive ou Niilas. Anelli Drecker, além de manter vivos os Bel Canto ao lado de Nils Johansen, gravou depois a solo, assinou colaborações com os A-ha ou Royksopp, mas nunca colocou um ponto final aos Bel Canto que, contudo mergulharam num silêncio longo a partir de 2002. Um ponto final nesse episódio de pausa chegou recentemente com a edição, já este ano, do álbum “Radiant Green”, primeiro disco dos Bel Canto em 22 anos. 

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