Veteranos, a caminho dos 55 anos de carreira, os Sparks são uma das mais invulgares e imprevisíveis bandas de sempre. Apesar de terem contado com alguns mais músicos na sua formação inicial estão, desde 1974 reduzidos à dupla de irmãos Ron e Russel Mael, revelando a sua obra uma capacidade única em atravessar géneros e assumir desafios, pela sua discografia havendo momentos de referência entre as memórias do glam rock, do disco sound ou de uma abordagem minimalista de pensar uma ideia de pop de câmara. Com origens na Califórnia, epicentro original de um percurso que gerou dois álbuns promissores mas pouco notados entre 1971 e 73, os Sparks rumaram a Londres em busca de possibilidades. Sob ecos recentes do que eram então fenómenos pop desafiantes (com a sua costela experimental) liderados por figuras como David Bowie ou os Roxy Music, trabalharam novas canções que cruzavam um espectro alargado de referências (que comportam até ecos do teatro musical) e valorizavam de outra maneira as presenças da guitarra e do baixo, assim como explorando mais ainda os teclados (particularmente o piano), criando cenários para uma presença vocal exuberante que, frequentemente, recorria ao falsete.  

Lançado pouco antes do álbum, “This Town Ain’t Big Enough For Both Of Us” chamou atenções para o álbum e fez dos Sparks uma inesperada força tardia do movimento glam rock. Uma grandiosidade barroca e uma alma teatral numa canção que se escuta como um filme que arrebata tornou-se  um clássico e já conheceu inúmeras versões (uma delas pelos Humanos nas suas atuações ao vivo). O álbum, com o título “Kimono My House”, explorava um quadro temático igualmente desafiante e uma marcada presença de um muito peculiar sentido de humor, não se esgota contudo nesta canção, incluindo o igualmente irresistível “Talent is An Asset”, onde o balanço da estrutura rítmica e um arranjo que transcende o trio elétrico acentuavam a verve teatral, que a postura vocal – nada contida – de Russel Mael ajudava a explorar.

Cinquenta depois, ao reencontrar um álbum que fez história, vale a pena referir não só os outros dois singles dali extraídos – “Amateus Hour” e “Hasta Mañana Monsieur” – mas também outros dois potenciais 45 rotações, “Falling In Love With Myself Again” ou “Here In Heaven”, claros exemplos da exuberância cromática que a música dos Sparks aqui alcançava, lançando definitivamente bases para um percurso ímpar na história da canção pop onde, como aqui se mostra ainda em “Equador”, não fecha a porta a momentos de aposta mais exploratória. O disco abriu portas a atenções que, em palco, o grupo explorou vincando também o poder da comunicação da imagem contrastada de ambos os irmãos, Russel de cabelos longos, comunicativo e agitado, Ron com o seu bigode peculiar, silencioso e circunspecto. Sobre a imagem uma nota ainda para a capa do disco, inspirada por uma foto de propaganda japonesa dos tempos da II Guerra Mundial.

Quanto ao título, “Kimono My House”, tem origem numa corruptela de “Come On-a My House”, uma velha canção nascida numa peça de teatro depois transformada num êxito na voz de Rosemary Clooney.

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