Apesar de ainda ativos, os Echo & The Bunnymen ficarão todavia registados na história da pop como uma das mais bem sucedidas (artística e comercialmente) entre as bandas nascidas do pós-punk britânico em finais, com a etapa mais significativa da sua obra fixada em disco na primeira metade dos oitentas. Na sua génese está uma força mítica da herança punk de Liverpool, os Crucial Three onde, além de Ian McCulloch (mais tarde o vocalista dos Echo & The Bunnymen) militavam ainda Julian Cope (que partiu para formar os Teardrop Explodes) e Pete Wylie (logo depois nos Wah!). Da separação dos Crucial Three nasceram três bandas que muito contribuíram para a criação de um novo foco de agitação em Liverpool, os Echo & The Bunnymen resultando da reunião de McCulloch com o guitarrista Will Sergeant e, mais tarde, o baixista Les Pattison. Depois de um single de estreia gravado com a ajuda de uma caixa de ritmos, aceitaram o baterista Pete De Freitas na banda e encontraram a formação que caracterizaria a etapa mais criativa da vida do grupo, entre 1980 e 85, na qual se cristalizou um raro casamento entre a herança viva do pós-punk britânico e encantos pelo melodismo e texturas do psicadelismo de finais de 60.

Depois de uma bela estreia em “Crocodiles” (1980) e de sinais de confirmação de visão e ambição no mais duro “Heaven Up Here” (1981) e de feliz nova aferição de rumo em “Porcupine” (1983), os Echo & The Bunnymen apresentam em 1984 o álbum pelo qual sempre serão recordados. “Ocean Rain” (que a publicidade em 1984 apresentava como “the greatest album ever made”), parte das experiências de construção de uma pop mais sofisticada de “Porcupine” e avança por terrenos ainda mais convencionais e clássicos nas formas, conciliando a escrita das melhores canções de toda a carreira do grupo com as guitarras com personalidade de Sergeant, arranjos de cordas sumptuosos e um evidente sentido de espaço e drama tanto na forma final das canções como na própria construção do alinhamento.

Gravado em Paris, completado em Liverpool (depois de esgotado o tempo de estúdio e orçamento previsto), é um dos mais belos álbuns pop dos anos 80. É um disco maduro, seguro, capaz de ligar o seu tempo a toda uma série de escolas fundamentais. “The Killing Moon” é talvez a mais inesquecível das canções dos Echo & The Bunnymen. “Silver” e “Seven Seas”, dois exemplos superiores de arte pop. E “Nocturnal Me” ou “Ocean Rain” exemplos da filigrana de detalhes que os arranjos e produção deste disco trabalharam com afinco, dele fazendo uma das obras-primas pop de 80.

O disco transporta em si as vivências (na primeira pessoa) do panorama pós-punk britânico, mas olhava mais adiante no mapa de referências, convocando sobretudo ecos dos sessentas, dos Beatles aos Doors e mais além. De certa forma está aqui um dos primeiros sinais de um processo de redescoberta de formas e nomes da pop dos sessentas que, nos anos seguintes, teria expressão evidente em discos de bandas como os Primal Scream ou Stone Roses. 

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