O que fazer 40 anos depois? Esta questão pode ter habitado o pensamento de Neil Tennant e Chris Lowe quando resolveram colocar um ponto final ao mais longo hiato entre álbuns da sua discografia. E eis que, praticamente em cima da passagem de 40 anos sobre a edição da versão original de “West End Girls”, eis que entra em cena “Nonetheless”, um décimo quinto álbum de originais que transpira uma segura tranquilidade veterana e traduz uma firme vontade em continuar a vincar identidade num presente que não se faz com nostalgia, apresar de em nada parecer estar preocupado em marcar terreno entre as novas tendências (e sabores da saison) da música pop.

Depois de um trio de álbuns criados ao lado do produtor Stuart Price, os dois primeiros mais focados em diálogos mais intensos com eletrónicas apontadas à pista de dança, o terceiro entendido pelos próprios Pet Shop Boys como sendo o seu “álbum berlinense”, eis que surge uma coleção de canções que, desta vez ao lado de James Ford (que tem no seu currículo como produtor nomes como os de Damon Albarn ou os Arctic Monkeys), mostram que é dentro da sua própria linguagem (e idiossincrasias) que os Pet Shop Boys continuam a demarcar um caminho próprio quer na criação musical quer na forma como, pelas suas canções, têm fixado olhares sobre o nosso tempo, os seus universos pessoais e o mundo ao seu redor. Se na trilogia criada com Stuart Price um certo desafio exploratório entrava em cena, em “Nonetheless” há sobretudo uma vontade em reencontrar modelos e pontas soltas entre pistas musicais de outrora, sugerindo algumas das canções ecos da sua própria “fase imperial”. Contudo, se a forma aponta a reencontros com espaços já vividos (sobretudo nos melhores momentos em que electrónicas e orquestras conviveram), as palavras ora traduzem novos olhares sobre a sociedade e comportamentos (“A New Bohemia”), ora olham para o passar do tempo de quem as escreve (“New London Boy”), fazendo num episódio em concreto, “Dancing Star”, o retrato de uma figura (o bailarino Rudolph Nureyev).

Naquele que é o mais sólido alinhamento de um álbum dos Pet Shop Boys desde “Very” o alvo só escapa a “The Schlager Hit Parade”, com título que prometia mais… Fica assim o party number entregue a “Bullet For Narcisus”, com tempero funk, house e… orquestal. E, convenhamos, ao cabo de dez faixas só podemos ficar de barriga cheia. Aos 40 anos os Pet Shop Boys dão-nos um disco com travo clássico. O tempo (na verdade o cenário) já não é para eles o que transformava as suas canções em êxitos globais. Mas o sabor está lá. Intacto.

“Nonetheless” dos Pet Shop Boys está disponível em LP, CD e nas plataformas de streaming numa edição da Parlophone.

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