Juntamente com Marvin Gaye ou Stevie Wonder, os Jackson 5 ajudaram a Motown a manter um perfil de visibilidade e relevância com a chegada dos anos 70. Mas, ao cabo de dez álbuns e uma valente mão-cheia de singles editados entre 1969 e 1975, o “pai” Jackson partiu em busca de um contrato mais vantajoso, entrando em cena a Epic para a qual a família se muda de armas e bagagens, salvo Jermanie, que entretanto se casara com Hazel, a filha mais velha de Berry Gordy, o “patrão” da Motown que, apesar da tempestade judicial então gerada, acaba por autorizar a mudança, com apenas um senão: a mudança do nome. E assim, com o mais novo Randy no lugar de Jermaine, eis que nascem os Jacksons, que se estreiam com “The Jacksons” em 1976, ao que se seguem “Goin’ Places” (1977) e “Destiny” (1978), álbum que começa a revelar os talentos autorais dos manos Jackson (particularmente Michael), incluindo no alinhamento “Blame It On The Boogie”, canção que vinca uma rota de aproximação ao disco que o próprio então ainda jovem cantor exploraria no primeiro álbum a solo para a mesma nova editora (“Off The Wall”, em 1979), o mesmo sucedendo com os Jacksons em “Triumph” (1980), disco que precede uma digressão que ficou depois registada no álbum “Live!” (1981). Mas por essa altura Michael estava já a preparar um segundo álbum para a Epic Records, que acrescentaria muitos efeitos aos elogios e valores de vendas recebidos por “Off The Wall”. E, depois de “Thriller”, lançado na reta final de 1982, tudo de facto seria diferente.
Em novembro de 1983, numa altura em que canções como “Billie Jean”, “Beat It” ou “Thriller” tinham já elevado Michael Jackson a um patamar de popularidade planetária, os Jacksons voltam a entrar em estúdio. Mas, ao invés do sucedido nos álbuns de 1978 e 1980 (este último já dominado pela escrita de Michael), o álbum que então nasce resulta mais de uma soma de contribuições pessoais que um verdadeiro esforço coletivo. Com Jermaine de regresso, “Victory” representa o único álbum dos Jacksons como sexteto e divide entre todos os momentos de protagonismo, cabendo contudo a Michael a mais gorda fatia das atenções. Afinal ele era então o autor do disco que se transformara no maior fenómeno da história da cultura pop e, sem ter partido parta a estrada depois de “Thriller” nem lançado qualquer novo material a solo desde então, tinha afinal aqui o seu passo seguinte. Em busca de um cartão de visita, Michael fez uma primeira tentativa de abordagem a “State of Shock” com Freddie Mercury, acabando depois a canção, com vertigem rock, por conhecer forma final ao lado de Mick Jagger que, diz-se, estava então fascinado pelos feitos do autor de “Thriller”. Michael surgiria ainda neste álbum ao lado de Jermaine em “Torture” (escolhido como segundo single) e, a solo, em “Be Not Always”, balada que surgia na linha direta da linha que une “Thriller” ao posterior “Bad” (1987). O resto do alinhamento destaca, à vez, as presenças de Jackie em “Wait” (em terreno comum à pop americana de então), Randy em “One More Chance” (um mid tempo igualmente incaracterístico face a outras canções da época), Tito em “We Can Change The World” (recuperando diálogos entre a pop e genéticas funk que os irmãos haviam já explorado em álbuns anteriores), Randy em “Hurt” (no mesmo comprimento de onda, embora aqui com as electrónicas mais evidentes e a voz num falsete que fica longe da excelência de Prince) e Marlon em “Body”, esta última na linha festiva de um “I Wanna Be Startin’ Something” ou do futuro “Smooth Criminal”, e que acabou por representar o terceiro single de “Victory”.

Fruto mais do contexto (leia-se a popularidade de Michael) do que da música guardada nestas oito canções, “Victory” deu aos Jacskons os seus melhores números em vendas e abriu caminho a uma digressão que na verdade representou a primeira experiência de estrada de Michael depois de “Thriller”. Mas na verdade nem na altura a aposta foi no patamar do que seria de esperar dado o impacte do mais recente álbum a solo de Michael Jacskon. “State of Shock” não teve teledisco e, no vídeo que acompanhou “Torture”, Michael não surgia em pessoa, mas na forma de um boneco de cera… Apesar das vendas significativas e dos resultados da digressão, o álbum acabou por ser eclipsado. Sobretudo por um tal Prince que levou o seu “Purple Rain”, lançado dias antes, bem mais longe.
40 anos depois, com o percurso conjunto dos irmãos pós-1975 recordado sem a mesma relevância da fase Motown (como Jackson 5), quando se evocam os Jacksons dos 70s e 80s as memórias vão sobretudo bater à porta de canções como “Blame It On The Boogie” ou do épico “Can You Feel It”, deixando as de “Victory” quase como notas de rodapé face a todo um percurso de facto recheado de grandes canções… Houve uma breve reunião (com Michael) em 2001 para um especial de televisão e projetos para um outro reencontro a seis estavam no mapa das possibilidades quando a morte levou o mais célebre dos irmãos. Estão no ativo desde 2012, agora reduzidos a três e, presentemente, em digressão europeia. Curiosamente não assinalaram nas suas redes o 40º aniversário deste álbum…





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