Já tinha havido experiências portuguesas com eletrónicas, dos domínios da música erudita com Jorge Peixinho a primeiras aventuras pop em projetos dos anos 70 como os Smoog. É claro que, na alvorada dos oitentas, começavam a emergir bandas e artistas atentos às eletrónicas que então marcavam a linha da frente da criação pop europeia. Dos Da Vinci ou António Variações (no single de estreia “Estou Além”, em 1982) aos Heróis do Mar (“Paixão” foi single em 1983), logo depois com os Ópera Nova ou Poke, um cenário novo emergia, com os sintetizadores com maior evidência, no panorama da, como então se dizia, “música moderna português”. Todos eles apostavam em canções. Mas foi com o disco instrumental “Láctea”, de Tó Neto, lançado no mesmo ano de “Caminhando” dos Da Vinci, que o mapa “pop” português conheceu primeiros álbuns no quais as eletrónicas conheciam um protagonismo maior.
Apresentado no Planetário Calouste Gulbenkian em finais de 1983, o disco revelava um alinhamento feito de uma sucessão de temas instrumentais, parte deles (como “Odisseia” ou “Cristal”) definidos segundo uma lógica pop com afinidades com as experiências de um Jean Michel Jarre em finais dos anos 70 e desenhado sob uma luminosidade melodista em contraste com as referências kraftwerkianas também centrais a este tipo de abordagens neste quadro temporal. Noutros instantes, mais contemplativos (como em “Zuzu”), o disco aproximava-se de ecos quer do rock progressivo quer das primeiras expressões da cultura ambiental, alargando depois horizontes a um esboço de trabalho vocal (via vocoder) em “D. Vagabundo”.

Natural de Angola, onde nasceu em 1955, Tó (António Eduardo Benidy) Neto mudou-se para Lisboa em meados dos anos 70 e ali estudou na Academia dos Amadores de Música e no Hot Clube. Filho de um engenheiro com conhecimentos na área do som e da eletrónica, conheceu assim natural afinidade para com um novo espaço musical numa altura em que este emergia como novo terreno fértil ao serviço dos espaços da música popular.
“Láctea” foi gravado em outubro de 1983 no Angel Studio, sob produção de Eduardo Paes Mamede. Tó Neto é o único instrumentista, consigo levando uma multidão de teclados Roland, um piano Rhodes , um piano elétrico da Yamaha e um baixo elétrico da Aria. Apesar de alguns títulos com ressonâncias africanas (relação que exploraria com maior profundidade em gravações posteriores), “Láctea” é um disco que, como algumas das visões pop de finais de 70 e inícios de 80 nos mostravam, procurava com ferramentas do presente algumas sugestões de futuro. Algumas destas faixas conheceram franca expressão em programas de televisão da altura, mas com o tempo foram ficando esquecidas, guardadas na memória de quem as vivera mais de perto. O disco nunca conheceu edição em CD. Nem está oficialmente disponível nas plafaformas de streaming.





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