Em tempo de verão eis uma banda sonora a pensar naquelas horas de calor ao final de tarde. A inspiração evoca memórias que, nos anos 80, através de figuras como José Padilla ou Alfredo Florito, levaram o mood de uma “movida” made in Ibiza a bares e pistas de dança de todos os cantos do mundo. Na hora de dar nome a tal “onda” bastou olhar para o mapa: “balearic” (ou seja, “baleárico”), já que Ibiza representa, precisamente, uma das ilhas Baleares (arquipélago mediterrâneo que envolve ainda Maiorca, Menorca e Formentera). Pois “SDDS Praia” (ler “saudades da praia”) é uma proposta de evocação dos ecos que este mesmo “clima” gerou em duas frentes do mundo lusófono: Portugal e Brasil. E junta, em dois LP (edição exclusiva em vinil) uma coleção de 16 temas (entre originais, versões, por vezes envolvendo remisturas) que traduziram, entre 1983 e 1999, esse mesmo tom de veraneio que fez escola em Ibiza e que, como bem explica o texto que encontramos no inlay, evocam sobretudo duas coordenadas: praia e saudade, compondo um par que convoca “memórias de dias idos, sentimentos de nostalgia e uma leve sensação de tristeza por conta dos verões que deveriam ter-se mantido eternos”.

Com curadoria de Arnaldo Robles, este encontro dos calores de Portugal e do Brasil surgiu de uma busca de gravações que respondessem ao par ordenado: alegria e melancolia. Um par, explica o texto, característico “dos regressos, dos amores frustrados e dos fins de tarde à beira mar”. O LP1, focado no Brasil, ora recorda uma remistura de “Doce Mistério” de Fafá de Belém (1987) ora lembra versões de canções de Milton Nascimento (“Portal da Cor”, por Ângela Jobim) ou dos Mutantes (“Ando Meio Desligado”, pelo projeto Gloria Inn Exelcious Dance, num tesouro quase esquecido lançado em 1999 por uma etiqueta de Niterói). A face brasileira de “SDDS Praia” envolve ainda nomes talvez menos conhecidos como Franco Perini (autor da música para várias novelas da Globo), Dom Américo, figura que fez sobretudo um percurso com reconhecimento local em Campos de Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro) ou o DJ Latino Bazar. 

No LP2 a representação portuguesa envolve memórias dos Clube Naval (uma das bandas da editora Fundação Atlântica), Manuel Cardoso (que em tempos milito nos Tantra), Luís Pedro Fonseca (na sua expressão a solo como Da Fonseca) ou os Poke (dupla dos irmãos Quico e Ricardo Serrano que integra a primeira geração da pop eletrónica made in Portugal). O alinhamento convoca ainda, por duas ocasiões, Fernando António dos Santos, uma preciosidade da quase esquecida cantora que em finais dos 80s se apresentava como Morena e, não deixando de representar surpresa (mas afinal faz todo o sentido pelas afinidades nas sonoridades), Júlio Pereira no tema título do belo “Miradouro” (1987).

Nota final para o cuidado gráfico desta edição, assim como para o facto de envolver notas explicativas (de Gustavo Keno) que nos permitem conhecer (em muitos casos até mesmo descobrir) os nomes aqui evocados. Venha um volume 2 em 2025…

“SDDS Praia”, com vários artistas, é uma compilação disponível em 2LP numa edição da Coco Records

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Trending