Há rótulos que se colam a grandes figuras e viram cognomes que por vezes são difíceis de transpor… Entre os méritos de uma magnífica minissérie de cinco episódios que nos coloca perante o percurso de Nara Leão (1942-1989) está precisamente um exemplo de inteligência na arte de combater (e até mesmo apagar) a força de um destes cognomes. “A musa da bossa nova”… Assim foi, tantas vezes, evocada a memória de Nara Leão, de facto reconhecendo um papel marcante que teve entre os encontros que, com a zona Sul do Rio de Janeiro como epicentro, viu a bossa nova nascer nos idos de 50. Mas se o apartamento dos pais da então muito jovem Nara era ponto determinante no mapa dessa movida em construção, na verdade o caminho que ela mesma depois tomou fez com que, acabasse por ser presença transversal a outros momentos não menos marcantes, ajudando a descobrir outras realidades musicais e sociais do samba nos anos 60, passando pelos míticos festivais televisivos, teve um papel visível na revolução de sons e ideias do tropicalismo, andou de mãos dadas com o cinema, viveu a dada altura fora do Brasil… Se fosse mesmo preciso arranjar um cognome para Nara Leão, a coisa mais certa seria até algo a ver com a génese da MPB. Mas, e como nos mostra “O Canto Livre de Nara Leão”, não é com expressões com esse peso lapidar que se conta a vida e o legado de uma das forças mais carregadas de liberdade e personalidade na história da música popular brasileira.

Em apenas cinco episódios, carregados de imagens (e registos áudio) de arquivo, a que se juntam novas entrevistas expressamente captadas para esta minissérie, atravessamos as várias etapas do percurso de Nara Leão mostrando como um fio condutor marcado pela força de uma identidade e o gosto pela constante descoberta da música a fez caminhar entre todos esses mundos que ajudou a inventar. No primeiro episódio escutamos histórias da bossa nova. No segundo é evocado o momento social e culturalmente determinante que corresponde, perante um afastamento face aqueles com que convivia antes, Nara Leão descobre as realidades do samba de morro, conhece figuras como Cartola, Zé Keti, Edu Lobo e outros mais cujos encontros ficam fixados no imortal “Nara”, álbum de estreia (de 1964) que é simplesmente um dos discos maiores da história da música popular brasileira. No terceiro episódio tem protagonismo a aventura dos festivais de televisão e, em particular, a sua experiência junto a Chico Buarque com “A Banda”, em 1966. No quarto, uma vez mais vincando um espírito livre e a força da sua personalidades, é lembrada a sua ligação ao tropicalismo (e recusa a entrar na mítica marcha contra a guitarra elétrica) e o momento em que, sob chuva de críticas, resolve cantar Roberto e Erasmo Carlos. A fechar o ciclo, o quinto episódio foca relações mais próximas, sobretudo com Roberto Menescal (amigo desde a mais tenra juventude), o segundo marido, Cacá Diegues, ou os filhos. 

Com vitaminas maiores em frases captadas em entrevistas gravadas em diferentes etapas do seu percurso, a minissérie olha para Nara Leão retrando-a como uma mulher invulgar no seu tempo. Livre, filha de uma educação que procurou valorizar a sua independência e personalidade, antítese da ideia do artista como figura visualmente exuberante, optou por dar voz às suas ideias. Não foi por acaso que o termo “opinião” fez história tanto no título de um disco como de um espetáculo, atos de coragem num Brasil que acabara de ver a entrada em cena de um mapa político diferente com a chegada ao poder de uma ditadura, em 1964. Coragem que, de resto, nunca faltou a uma figura que fez das suas ideias uma voz diferente na própria história da canção como frente de intervenção.

Nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Marias Bethânia, Nelson Rodrigues, Roberto Menescal, Edu Lobo, Cacá Diegues ou Marieta Severo (atriz e amiga da cantora), entre muitos mais, juntam aos episódios (muito bem estruturados) memórias e opiniões, ajudando a construir um retrato que dispensa, como sentimos no final, o peso daquela frase lapidar. Pode ter sido importante musa nos dias da bossa nova. Mas Nara Leão foi muito mais. E o que esta série nos mostra é que está na hora de entendermos que teve mesmo um papel maior, mais transversal e com legado bem mais extenso, na história da música popular brasileira. 

Com realização de  Renato Terra, a minissérie “O Canto Livre de Nara Leão”, criada para assinalar os 80 anos do seu nascimento, em 2022, está disponível na plataforma Globoplay.

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