A separação do núcleo original dos Human League deu espaço tanto para a materialização das visões pop mais luminosas e acessíveis da fação liderada pelo vocalista Phil Oakey (que manteve o nome da banda) como permitiu a Ian Craig Walsh e a Martyn Ware abrir asas para experiências onde a palavra desafio poderia ser mais vezes enunciada. Assim foi na estreia, sob a designação B.E.F. (ou seja, British Electric Foundation), em “Music For Stowaways” (1980) ou, já como Heaven 17, chamando a presença do velho amigo Glenn Gregory, assinalando promissores primeiros passos entre os quais o álbum “Penthouse and Pavement” (1981). A ideia de juntar uma alma mais crítica (e podemos mesmo dizer política) às palavras e a vontade em cruzar a emergente linguagem pop desenhada com electrónicas com heranças do R&B e funk criou ali um episódio distinto dos demais, gerando um dos maiores feitos da primeira geração da pop eletrónica britânica. Os resultados obtidos pelo álbum deixaram evidentes aplausos registados entre melómanos, embora sem conseguir impor no mapa pop de então um single de êxito como os que então surgiam pelos Soft Cell, OMD ou, claro, os Human League (que então apresentavam “Dare!”). E convenhamos que entre canções como “Play To Win”, “The Height of The Fighting” ou “Geisha Boys and Temple Girls” (que não foi single) havia argumentos suficientes… Coube então ao passo seguinte o (justo) assegurar de melhor sorte para os singles dos Heaven 17.
Criado numa lógica de continuidade face ao que fora o álbum de estreia, suavizando contudo as arestas mais funk da face A de “Penthouse and Pavement”, destacando o caráter cénico mais elaborado do lado B desse disco de 1981 e acentuando mais ainda a vontade em explorar uma admiração evidente pelo R&B e a música soul em particular, o disco ao qual chamaram “The Luxury Gap” pode não ter hoje o peso histórico desse LP de estreia mas, na verdade, é como que a segunda parte de um mesmo período já que, criado depois da experiência (como B.E.F.) ao lado de Tina Turner em “Let’s Stay Together”, o terceiro álbum “How Man Are” (contando com a secção de metais dos Earth Wind and Fire) mostrava-se já mais distante da linguagem pop eletrónica que vira nascer os Heaven 17 pouco tempo antes. Com a Virgin a aceitar o risco na hora de encarar o budget, permitindo ao grupo trabalhar com uma orquestra em três canções, entre as quais “Temptation” onde, contando com a contribuição da voz soul de Carol Kenyon (que poucos anos depois cantou em “Don’t Waste My Time” de Paul Hardcastle), criaram o momento de sucesso maior de todo o percurso do trio. Juntamente com o elegantes “Let Me Go!”, “Come Live With Me” e “Best Kept Secret” esta canção define o patamar que define a continuação de um rumo de gradual afastamento das premissas iniciais que, por seu lado, são evidentes em canções como “We Live So Fast”, “Crushed By The Wheels od Industry” ou “Who’ll Stop The Rain”, todas elas mais próximas dos caminhos tomados em “Penthouse and Pavement”.

A presente reedição dos dois primeiros álbuns dos Heaven 17 assegura um reencontro com dois episódios de facto significativos nesta etapa da história da pop eletrónica. A versão em CD inclui como extras os lados B da época e as versões máxi dos doze polegadas originais, acrescentando um pequeno tesouro de arquivo: uma maquete de “Temptation” que permite reconhecer o processo de maturação que a canção conheceu depois, em estúdio. Pena, perante a existência de um booklet, que uma reedição deste calibre não tenha contemplado um texto que contasse a história do disco e do tempo em que nasceu.
“The Luxury Gap”, dos Heaven 17, está disponível numa nova prensagem em vinil com remasterização “half speed”. A edição 2CD junta um disco adicional com extras.





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