A saída de cena de Vince Clarke, ainda em 1981 (o ano da estreia discográfica do grupo), deixou nas mãos de Martin Gore o leme dos destinos criativos dos Depeche Mode. O músico, que tinha apenas assinado “Tora Tora Tora” e o instrumental “Big Muff” no álbum de estreia, deu por si com a tarefa de compor todo o segundo álbum (“A Broken Frame”) logo no ano seguinte, mantendo o estatuto, apesar da contribuição de Alan Wilder (entretanto elevado ao estatuto de membro permanente) no seguinte “Construction Time Again”, disco que revelava claros sinais de evolução tanto na escrita como na criação de uma sonoridade, representando um importante passo na consolidação do percurso do grupo. Em 1984, ainda longe do encontro de uma nova dimensão na comunicação do som e imagem que seria atingida por alturas de “Black Celebration” (1986) e do sucesso mainstream global que chegaria entre “Music For The Masses” (1987) e “Violator” (1990), o grupo apresenta em “Some Great Reward” outro episódio de clara afirmação de personalidade, que de resto lhes garante novos momentos de êxito na Europa e um primeiro single de grande impacte nos Estados Unidos, com o quarto lugar então obtido por “People Are People”. 

Evoluções tecnológicas recentes, nomeadamente o recurso ao sampling (já usado no disco anterior), juntamente com uma visão cénica sobretudo moldada por Alan Wilder, levaram a várias canções deste álbum uma tonalidade pop industrial, com sons metálicos a definir elementos estruturais da arquitetura rítmica. Ao mesmo tempo, um a cada vez mais clara exposição das temáticas mais caras a Martin Gore (o corpo, a sexualidade, a religião), ajudou a vincar mais ainda uma personalidade que, mesmo sem convocar aquela carga clássica do disco conceptual, deu a “Some Great Reward” marcas de identidade que o fazem até diferente entre os demais títulos da obra dos Depeche Mode. Do fulgor de “People Are People”, “Master And Sevant” ou “Something To Do” à fragilidade de “Somebody” (na voz de Martin Gore), passando pela elegância cénica de canções como “If You Want”, “It Doesn’t Matter” ou “Blasphemous Rumours”, o álbum de 1984, com produção de Daniel Miller e Gareth Jones, representou um passo determinante na criação dos alicerces que fazem hoje dos Depeche Mode a banda de mais sólido e longo percurso com raiz na primeira geração da pop eletrónica made in UK

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