Formados em meados dos anos 70, juntando inicialmente um ponto de exclamação ao seu nome, os Ultravox! procuravam um caminho seguindo por espaços distantes do que então a revolução punk propagava. Trabalharam com Brian Eno num primeiro álbum, com Steve Lillywhite no primeiro e segundo, e na faixa final desse “HaHaHa” (1977) – ou seja, em “Hiroxima Mon Amour” – encontravam no diálogo das guitarras com as (emergentes) electrónicas um rumo, que exploraram mais profundamente logo depois em “Systems of Romance” (1978), disco que gravam sob produção de Conny Plank, figura referencial do krautrock (com passagem por nomes como os Cluster ou Can). A falta de resultados acabou por conduzir à saída do vocalista (John Foxx, que encetaria carreira a solo) e do guitarrista deixando o núcleo dos Ultravox – Billy Currie (teclas), Chris Cross (baixo) e Warren Cann (bateria) – sem um futuro nítido pela sua frente. Cann colaborou então em sessões dos Buggles, Cross participou em concertos de outros músicos e Currie foi chamado a estúdio por Gary Numan e também pelo projeto Visage (de Steve Strange e Rusty Egan, figuras da noite londrina que então teciam as ideias do que em breve ficaria conhecido como o período new romantic). É precisamente nos Visage que Billy Currie conhece Midge Ure, cantor e guitarrista que aceita juntar-se aos Ultravox encetando então o grupo uma segunda etapa que hoje recordamos como correspondendo à formação “clássica” do grupo.
Os dois primeiros álbuns que gravam nesta etapa – “Vienna” (1980) e “Rage in Eden” (1981) – retomam o contacto com Conny Plank, aprofundando o trabalho de ligação de heranças pop/rock às potencialidades melódicas e cénicas (chamavam-lhes “atmosféricas”) dos sintelizadores. O contexto de época, a imagem que adotam e a eventual ligação aos Visage acaba por associá-los ao aos new romântico, sendo que talvez tenham representado a banda com mais ambições arty do “movimento”, procurando um terreno ocasionalmente mais experimental (sem nunca sair das fronteiras da pop). O sucesso, conquistado logo com “Vienna”, lança-os para um patamar de grande visibilidade que continuam em álbuns posteriores como “Quartet” (de 1982, produzido pelo veterano George Martin), “Monument” (registo ao vivo editado em 1983) e “Lament” (de 1984, o primeiro a ser auto-produzido), encerrando-se este ciclo com 1986, “U-Vox” (1986), aqui a dar forma a um reencontro menos focado com Conny Plank, álbum que captou pistas entre o que começava a ser a carreira a solo de Midge Ure, sugerindo um flirt com o sinfonismo e heranças célticas que acabariam por definir um álbum medíocre que, finda a digressão que se sucedeu, deu lugar à separação desta formação, com reunião que só aconteceria valentes anos depois, já sob mood de nostalgia e que então gerou mais um álbum ao vivo – “Return To Eden – Live At The Roundhouse” (2012) e “Brilliant” (2012), o primeiro disco de inéditos que os quatro gravam desde 1984 (uma vez que o baterista Warren Cann não colaborara já em “U-Vox”).

Evidente sucessor de “Quartet”, disco de 1982 que, com George Martin ao lado do grupo, levou os Ultravox a olhar para lá das visões nascidas em quadro new wave que vinham a ensaiar desde o final dos anos 70 para experimentar um patamar de fulgor mais épico, criando verdadeiros hinos (e um deles chamava-se mesmo “Hymn”), “Lament” corresponde ao atingir da plenitude da linguagem que o grupo vinha a criar desde a entrada em cena de Midge Ure. Se por um lado “White China” (que curiosamente não foi escolhida como single) traduzia uma atenção pela emergência de uma pop eletrónica dançável e “One Small Day” lembrava que esta ideia festiva podia convocar a energia elétrica das guitarras, por outro “Dancing With Tears In My Eyes” e a canção-título traduziam um aprimorar da escrita de hinos, a primeira a conquistar atenções ainda maiores pela companhia de um teledisco que explorava um temor nuclear que estava então na ordem (geopolítica) do dia. As maiores surpresas chegavam contudo no lado B, que amplificava as ambições cenografias já ensaiadas em “Quartet”, numa sucessão de canções que antecipam claramente o rumo que em breve conduziria Midge Ure ao seu álbum de estreia a solo “The Gift”, editado no ano seguinte. Além de “A Friend I Call Desire” e “When The Wind Blows” a face B de “Lament” junta ainda “Man Of Two Worlds” e “Heart Of The Country” que conheceram edição em single em alguns (poucos) territórios da Europa continental, entre os quais a Alemanha, mas que não tiveram igual sorte em casa, ou seja, no Reino Unido.
A nova edição DeLuxe que surge 40 anos depois olha para “Lament” tal e qual aconteceu recentemente com os álbuns originalmente lançados entre 1980 e 1982, ou seja, inclui, além do alinhamento original, uma nova mistura assinada por Steve Wilson (não vejo a necessidade, mas enfim…), uma coleção de versões longas, edits e lados B, remisturas originais e recentes (entre as quais “Lament” revisto por Moby) e a gravação de um concerto desta etapa, neste caso uma atuação no mítico Hammersmith Odeon (Londres) em junho de 1984. Esta edição especial, que junta sete CD, inclui ainda o single de 1985 “Love’s Great Adventure”, lançado então como inédito por alturas de um ‘best of’ mas que em tudo se relaciona com as canções mas enérgicas da face A de “Lament”. O DVD que a caixa junta aos CD inclui misturas áudio para equipamento 5.1.
“Lament 40th Anniversary”, dos Ultravox, está disponível numa caixa de 7CD + 1DVD, assim como nas plataformas digitais, numa edição da Chrysalis





Deixe um comentário