O percurso de Nara Leão (1942-1989), como há uns meses aqui referi, corresponde a um exemplo de inteligência na arte de combater (e até mesmo apagar) a força de um cognome. “A musa da bossa nova”… Assim de facto foi, tantas vezes, lembrada a memória de uma das mais belas vozes brasileiras, reconhecendo um papel marcante que uma ainda muito jovem Nara teve entre os encontros que, com a zona Sul do Rio de Janeiro como epicentro, viram a bossa nova nascer nos idos de 50. Descendente de emigrantes açorianos e italianos, nascida em Vitória, Nara Leão vivia desde muito cedo em Copacabana. Com pai advogado, mãe professora e uma irmã mais velha jornalista, Nara viu o apartamento da família ser transformado numa das salas mais vibrantes da cidade naquelas noites em que uma nova música ali tinha um dos pólos de invenção e convívio. Nara tinha já tido aulas de violão na academia de Carlos Lyra e Roberto Menescal, dois entre os muitos músicos que, por aqueles dias, frequentavam a sala desse mítico apartamento no edifício Champs Elysees. A música ia nascendo, Nara cantava entre os demais e o cognome de “musa” ganhou forma. 

Porém uma rutura pessoal colocou-a noutras rotas com a chegada da década de 60. Junta-se ao cineasta Rua Guerra, reencontra-se com Carlos Lyra e ganha um interesse maior por questões políticas e sociais. Espelho direto destras vivências acaba a descobrir o samba de morro (mais carregado de realismo social), conhece figuras como Cartola e Zé Keti e dá por si, na hora de gravar um primeiro disco (no mítico selo da Elenco) a abrir janelas inéditas entre o que era todo um mundo de referências que iriam mudar a história do próprio samba e o relacionamento com outras músicas. Na verdade, mais do que “musa” da bossa nova, Nara Leão marca, com o seu álbum de estreia, em 1964, um passo determinante e percursor daquilo que em breve seria conhecido como MPB (o quer não a impediu de, anos depois, ter igualmente um papel bem visível na aurora do tropicalismo). 

O primeiro dos dois discos que Nara Leão grava e edita em 1964 corresponde assim a um momento social e culturalmente determinante que, perante um afastamento face aqueles com que convivia antes, leva Nara Leão a descobrir um novo universo de colaboradores aos quais devemos juntar aqui também o então muito jovem Edu Lobo, que também teria um álbum de estreia nesse mesmo ano. Filha de uma educação que procurou valorizar a sua liberdade, independência e personalidade, Nara Leão começou logo aqui a afirmar-se como artista não como uma figura visualmente exuberante, mas alguém que optava por dar voz às suas ideias. Não foi por acaso que o termo “opinião” faria em breve história tanto no título tanto de um disco como de um espetáculo, atos de coragem num Brasil que acabara de ver a entrada em cena de um mapa político diferente com a chegada ao poder de uma ditadura, também nesse mesmo 1964. Ao cantar “Diz Que Fui Por Aí” ou “O Morro (Feio Não é Bonito)” Nara Leão deixava claro que saía da zona de (literal) conforto em que crescera para descobrir e partilhar outras realidades, mostrando que a música era mais do que apenas entretenimento. Ao mesmo tempo, entre a cenografia da “Canção da Terra” (uma das composições de Edu Lobo que aqui canta) ou “Nana” (esta criada para o cinema) vincava que a sua revolução não se fazia apenas no plano das palavras e dos temas mas também numa perspetiva estética que queria desafiar rotinas e hábitos. “Nara” é, de facto, um dos episódios mais cheios de personalidade e vontade em mudar na história da música popular brasileira. E também um dos mais belos.

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