Há bandas e músicos que ficam na história da música pop com apenas uma canção. Mas também há quem tenha conquistado o seu lugar pela força de um álbum. É verdade que editaram um segundo longa duração em 1986, do qual surgiram três singles, dois deles ainda com considerável visibilidade. Mas é pelos feitos de “Welcome To The Pleasuredome” que hoje recordamos os Frankie Goes To Hollywood. Nascidos na Liverpool de inícios de 80, foram (juntamente com os Art Of Noise) um nome central no lançamento da ZTT Records, a editora que deu voz (e som) a uma visão pop concebida por Trevor Horn. Em 1983 o single de estreia “Relax” revelava o grupo, juntando uma dinâmica hi-nrg a uma moldura pop grandiosa gerando ao mesmo tempo um “caso” mediático, com a BBC a recusar a sua passagem em antena, mas que virou o feitiço contra o feiticeiro, chamando ainda mais atenções para a canção. Seguiram-se “Two Tribes”, uma sinfonia pop em tempo de temor nuclear. E, meses depois, “The Power Of Love”, uma balada elegante com acompanhamento orquestral que acabou rotulada como canção de Natal não pela canção em si mas pelas imagens do teledisco que a acompanhou (em tempo de quadra natalícia, é verdade)…

Com três poderosos cartões de visita (o terceiro na verdade lançado um mês depois do duplo LP), todos eles elevados ao estatuto de número um no Reino Unido, o álbum “Welcome To The Pleasuredome”, revelava em finais de 1984 a confirmação das expectativas entretanto lançadas. Hedonismo e sarcasmo estavam ao serviço de um encontro entre a vitalidade de heranças rock’n’roll, o apelo melodista da pop. A dinâmica da música de dança juntava uma arquitetura adicional e abria caminhos rumo às pista de dança. E ainda, e não é ingrediente menor, a cuidada e exigente produção com assinatura de Trevor Horn, marca de identidade em tempo de afirmação de uma editora que juntava à equação um complemento agit prop assinado por Paul Morley, cujos textos e slogans são ainda parte marcante nesta aventura). 

1984 ficaria para a história como o ano dos Frankie Goes Top Hollywood. Curiosa coroação para uma banda que tinha passado invisível pelas mãos de muita gente até bem pouco antes. E de facto quase ninguém deu por eles nos primeiros anos de vida. E vários foram os “nãos” que colecionaram vindos de algumas editoras… Em finais de 1982, John Peel (radialista da BBC)  convidou-os para uma a gravação de uma sessão, na qual registraram, entre outros, “Two Tribes” e “Relax”, ainda nas suas versões embrionárias. Em inícios de 1983 há uma nova sessão. Na mesma altura, mas ainda sem editora, são chamados a tocar na televisão, no programa “The Tube”. Trevor Horn (ex-Buggles), músico e produtor que acabara de vestir a pele de editor, desafiou-os a juntarem-se à sua nova ZTT Records. E da noite para o dia a vida da banda mudava completamente.

A gravação do primeiro single gerou logo focos de tensão. “Cansado” de ouvir a banda tocar da forma como o faziam, como o próprio vocalista Holly Johnson recordou mais tarde na sua autobiografia (“A Bone In My Flute”, 1994), Trevor Horn afastou a dada altura a banda do estúdio. Preparou então para a canção que teimava em não nascer como ele mesmo a imaginara, uma nova base mais electrónica. Os três músicos da banda – Peter Gill (bateria), Mark O’Toole (baixo) e Brian Nash (guitarra), juntamente conhecidos como The Lads – foram conduzidos para uma piscina, onde J.J. Jeckzalic (elemento dos Art Of Noise) os gravou a mergulhar. Esse som, manipulado, seria assim a sua única contribuição para a versão de “Relax” que chegou a disco. Paul Rutherford, o quinto elemento, foi então convidado a fazer uma segunda voz. Ao mesmo tempo, Paul Morley, jornalista musical e outro dos sócios fundadores da ZTT, desenhava uma estratégia de lançamento para o grupo através de anúncios publicados na imprensa recorrendo a frases bombásticas. Depois, tomando três assuntos polémicos como rosto para a agenda de comunicação, ajudou a afinar com o grupo abordagens temáticas distintas para cada um dos seus três primeiros singles: sexo (em, “Relax”), a guerra (“Two Tribes”) e a religião (“The Power Of Love”). Foi também Morley quem criou os slogans da linha “Frankie Say…”, o primeiro dos quais inicialmente usado numa T-shirt promocional, depois elevado a trunfo a explorar no merchandising

Contudo, a relação da banda com as contribuições de Morley azedou com o tempo. Perante o impacte global de “Relax” (que em poucos meses chegaria ao número um), Holly Johnson criticaria o facto de a editora ter chamado a si os créditos pelo sucesso da banda.

Mas verdade é que a ideia que coordenou o lançamento da banda foi, juntamente com a força da música, infalível. Um encontro feliz, portanto. “Two Tribes” (com um teledisco mostrando Reagan e Chernenko, à altura os líderes dos EUA e URSS, em cenas de luta numa arena) repetiu e amplificou até o fenómeno lançado por “Relax”. E, ao chegar ao fim do ano, “The Power Of Love” garantiu-lhes um terceiro clássico imediato. O álbum de estreia, “Welcome To The Pleasuredome”, um duplo (coisa então rara), ordenado conceptualmente segundo um programa que recorria a slogans, juntava ao alinhamento outros inéditos originais (como o tema título, “Krisco Kisses”, “The Only Star In Heaven”, “The Ballad of 32” e “Black Night White Light”, além de pequenas vinhetas) e versões de canções como “Born To Run” de Bruce Springsteen, “War” (originalmente interpretada pelos Temptations), “Ferry Cross The Mersey” (dos Gerry & The Pacemakers, banda célebre de Liverpool) ou “San Jose (The Way) (de Burt Bacharah e Hal David, imortalizada por Dionne Warwick). O disco foi recebido com entusiasmo e conheceu a aclamação aa crítica. O grupo era então consagrado como o fenómeno pop do ano. Mas saberiam resistir ao efeito da novidade? Com Trevor Horn e a ZTT fora da equação na hora de criar um segundo disco o “momento” não os apanha com o mesmo fulgor… E a história acabaria então, talvez cedo demais face ao ímpeto de tão magistral álbum de estreia. Mas esse ficou. E é um marco maior na história da música pop. 

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