Lançado na alvorada dos anos 90, o álbum “Red Hot + Blue” juntou-se ao ainda recente “Staw Awake” (1988), dedicado às canções da Disney e precedeu o igualmente marcante “I’m Your Fan” (1991), que colocou no centro das atenções a figura de Leonard Cohen, para assim criar o trio de lançamentos cujo impacte seria determinante para a entrada em cena de uma vasta geração de discos de tributo. Mas este disco, que tinha como denominador comum entre todas as canções o facto de serem composições originais de Cole Porter, transportava em si muito mais significados e intenções. Era o primeiro lançamento da Red Hot Organization que, desde então, tem usado discos como este para comunicar e recolher fundos para campanhas de luta contra o vírus VIH. E esse é precisamente um dos ângulos de abordagem a este álbum que nos propõe John S. Garrison, um académico norte-americano com obra até aqui sobretudo focada em nomes de referência da literatura em língua inglesa (de Shakespeare a Milton), que assina o volume da série 33 1/3 que é integralmente dedicado a este título de 1990.
Cruzando as memórias da criação deste álbum com as da sua própria juventude (era então um jovem estudante universitário a descobrir a sua sexualidade num tempo em que a ameaça de uma eventual infeção com o vírus transportaria uma sentença mortal), o livro contextualiza a alma deste primeiro lançamento no quadro maior do ativismo que, vindo dos anos 80, procurava chamar atenções para a necessidade de apertar o cerco a um vírus que, por aqueles dias, já havia colhido muitas vidas. E entre essas memórias (com cenário em São Francisco) e as 20 canções de um alinhamento que juntou contribuições de nomes como os de Neneh Cherry, Iggy Pop, Debbie Harry, Sinéad O’Connor, Annie Lennox, Jimmy Sommerville, Erasure ou, entre outros mais, David Byrne (que foi o primeiro a entrar a bordo neste projeto). O autor vinca o facto deste ter sido um projeto Multimedia, já que a quase todas as canções foi associada a criação de um teledisco, em alguns casos envolvendo figuras de renome (Tom Waits foi filmado por Jim Jarmusch, os U2 por Wim Wenders). Talvez falte ao livro uma reflexão maior sobre o contexto musical e cultural (leia-se pop) que aqui se retrata ou até um olhar mais amplo por quase 35 anos de atividade musical da Red Hot Organisation. Mas entre o testemunho pessoal e a evocação das canções e vídeos fica um retrato interessante, com personalidade vincada, de um disco marcante.





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