Terminada a Sing Blue Silver Tour não havia planos imediatos para a gravação de um novo álbum (nem mesmo novas canções para conduzir o grupo de volta a um estúdio). O sucesso de uma remistura de “The Reflex” criada por Nile Rodgers cimentava contudo o estatuto que os Duran Duran tinham conquistado e um desafio do realizador Russel Mulcahy acabaria mesmo por abrir portas à criação de uma nova canção. Com vontade de fazer uma adaptação para cinema de “The Wild Boys: The Book of The Dead”, de William S. Burroughs, o realizador – que assinara alguns dos mais icónicos telediscos do grupo até então – pedira-lhes que criassem música original para depois usar no filme. O projeto de adaptação ao cinema nunca se chegaria a concretizar, dele tendo contudo ficado a canção nascida desse desafio – “The Wild Boys” – e um teledisco de orçamento milionário rodado no 007 soundstage em Pinewood, que acompanharia mais tarde a edição do single e seria usado num filme-concerto que o mesmo realizador criaria ainda esse ano.

“The Wild Boys” seria integrado como extra de estúdio no alinhamento de um álbum ao vivo que serviu de retrato da Sing Blue Silver Tour e que representou parte de um pacote maior de lançamentos que incluía ainda um documentário em vídeo e um livro de fotografias com o mesmo nome da digressão, o filme-concerto “Arena: An Absurd Notion”, um making of deste mesmo filme (editado em cassete VHS) e ainda uma versão para televisão das imagens captadas ao vivo, apresentado como “As The Lighs Go Down”.

“Arena”, o primeiro álbum ao vivo dos Duran Duran é assim um híbrido juntando nove temas captados em palco e o novo inédito gravado em estúdio.

O som está porém longe de traduzir o entusiasmo então habitual em noites de concerto, promovendo a mistura final uma aproximação ao rigor mais habitual em sessões de estúdio. As próprias palmas e gritaria parecem sujeitas a uma quase discreta existência cénica, o que contrasta com o que se ouvia na própria emissão de rádio então nascida por ocasião da passagem da banda por Oakland. “Arena”, na verdade, mais parece responder à vontade em editar um best of do que em apostar no fulgor sem freios de um álbum ao vivo.

Sujeito ao limite de tempo do LP em vinil, o alinhamento de “Arena” não corresponde de todo ao que era a setlist habitual nos concertos da Sing Blue Silver Tour. Começa por ignorar “Tiger Tiger” (que, mesmo pré-gravado, fez muitas vezes a abertura da noite) e não junta temas como “New Moon On Monday”, “The Reflex”, “Of Crime and Passion” ou “(I’m Looking for) Cracks in the Pavement”, todos eles do álbum lançado em finais de 1983 e frequentemente apresentados em palco durante esta digressão. E esquece ainda clássicos mais antigos como “Friends of Mine” ou “My Own Way” que também passaram pelos palcos por aqueles dias. Mesmo assim o alinhamento final não se esgota em temas editados como single, incluindo “New Religion” e “The Chauffeur” (ambas de “Rio”) e “The Seventh Stranger” (de “Seven and the Ragged Tiger”) que assim ganharam o reconhecimento como peças centrais da discografia da etapa 1981-85 do grupo. Em 2004, uma reedição em CD juntou ao alinhamento os temas “Rio” e “Girls on Film”, este segundo numa versão que vai buscar elementos à versão originalmente lançada em máxi-single em 1981.

Na verdade seria preciso chegar a era do streaming para surgir uma edição de uma gravação mais próxima do que eram os concertos desta etapa. Retomando o título “As The Lights Go Down” essa gravação teria depois edição em vinil em 2019. “Arena”, mesmo assim, é um documento da etapa de maior popularidade da banda à escala global e junta à música mais um trabalho com personalidade vincada do design da Assorted Images ao serviço dos Duran Duran.

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