Não faltam por aí livros sobre os Abba. Das mais variadas biografias (curiosamente a que foi este ano publicada entre nós está longe de figurar entre as melhores) a títulos que olham uma a uma as canções ou destacam um só disco (como é um caso de um volume da série 33 1/3 dedicado a “Abba Gold”), a bibliografia sobre o quarteto sueco é de facto vasta. Mas se for preciso destacar um as escolhas podem oscilar entre os vários títulos já lançados pelo especialista Carl Magnus Palm ou o recente “The Book of Abba: Melancholy Undercover”, assinado por Jan Gradvall, um dos mais destacados jornalistas suecos com trabalho sobretudo focado na música.
Este livro não é uma biografia dos Abba. Nem sequer arruma as histórias que apresenta segundo uma norma cronológica. Trata-se antes de um olhar mais aberto sobre o grupo e o fenómeno de popularidade que a sua música gerou, procurando pistas para explicar o sucedido ao desenhar um detalhado mapa cultural e social da Suécia (e depois do mundo que se rendeu ao quarteto), sem esquecer a dimensão vivencial ligada aos percursos individuais dos vários protagonistas, não apenas Agnetha, Frida, Benny e Björn mas também o manager ou o baixista que muito contribuiu para o músculo de canções pop com raro potencial de sedução para a dança.
Jan Gradvall naturalmente lembra momentos chave como o foram a vitória na Eurovisão em 1974, o “salto” que chegou em 76 com “Dancing Queen”, as expressões de desagregação de vidas pessoais documentadas em “The Winner Takes It All” (1980) ou no álbum “Visitors” (1981)… Mas é quando explica fenómenos suecos como o raggare (a resposta local à emergência da cultura rock’n’roll), as regras que definiam as listas de sucessos que definiam as rotas de popularidade no país antes do boom dos Abba, ou o Melodienfestival (ou seja, o equivalente local do Festival da Canção) que começamos a compreender o modo como o contexto foi também encaminhando os cenários que assistiram à emergência de uma banda pop vinda de uma geografia até aí invulgar. O livro, que nota como a adesão do grupo a um inglês que é mais o universalmente falado por turistas do que o que qualquer banda britânica usaria em canções, sublinhando ainda um tempo de acesso de uma emergente classe média ao turismo (com a consequente abertura de horizontes), acompanha depois os caminhos dos músicos e profissionais ao seu redor, detalhando pequenas grandes histórias, como a do pai de Frida, um soldado nazi que tive um caso com uma jovem norueguesa, ditado o desfecho da guerra a mudança de mãe e filha para a Suécia, ocorrendo apenas longos anos depois, já com os Abba com dimensão global, um reencontro com o pai. Mais que o onde e o quando, o livro procura antes explicar o como e o porquê. E se tem os Abba como objeto, na verdade explica como um caso fora dos eixos geográficos até então dominantes da cultura pop rompeu fileiras e, valentes anos antes da fragmentação de atenções que a idade da internet colocou no mapa mundo da cultura popular um ponto até então invisível que, de então para cá, solidificou um protagonismo hoje claramente reconhecido. A história mundial da música pop conheceu um “antes dos Abba” e um “depois”. O livro ajuda a explicar porquê.

“The Book of Abba: Melancholy Undercover”, de Jan Gradvall, é um volume de 339 páginas publicado pela Faber & Faber





Deixe um comentário